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28 de dez. de 2019

Quem quer ser um clássico?

Na foto, o escritor francês Victor Hugo.


Recentemente, tenho acompanhado as postagens de um grande mestre sobre Os Miseráveis, de Victor Hugo. No dia do Natal, diante de uma explanação desse mestre sobre a descrição minuciosa dos esgotos de Paris no referido livro, pensei, mas só comentei no dia seguinte: “Por que continuamos a escrever depois de grandes como Hugo? Ou melhor: por que eu continuo a escrever?”

É verdade ― e isso não deveria ser motivo de orgulho ― que o comportamento humano mudou muito pouco de Homero para cá. Ainda há amor, guerra e traição. Ainda nos angustiamos com ausências, mortes e paixões não correspondidas. Ainda nos perdemos por somenos e ansiamos por nossa vitória final e completa. Almejamos o sopro divino das Musas, mas não queremos esperar para recebê-lo.

De fato, quase 3.000 anos depois, ainda estamos aprendendo a administrar e a expressar as mesmas emoções e os mesmos conflitos existenciais. Apesar disso, cada escritor tem uma forma particular de processar as situações da vida e as questões anímicas candentes e de materializá-las em suas obras. Ademais, também é verdade que nenhum escritor consegue dizer tudo, o que é muito bom para nós, que insistimos em escrever depois dos clássicos.

Acredito sinceramente que cada escritor é uma soma de todos os seus mestres. À medida que lemos os mais diversos autores, vamos incorporando em nossa escrita traços destes escritores. E podemos incorporar estes traços até de forma inconsciente: de tanto ler o autor X, pegamos os mesmos cacoetes. Até que ocorre uma alquimia interna e, da combinação desses elementos estilísticos alheios, surge a nossa estilística própria.

Gostaria de ressaltar, porém, que não se trata de uma cópia deslavada, pois àquele traço somamos outras características, dando o nosso tom pessoal a ele. Por exemplo: com Dostoiévski e Kafka, aprendi a descrever enquanto narro, para não precisar suspender a narrativa durante a descrição de algo ou de alguém. Contudo, posso garantir que a minha escrita é bem diferente das escritas de Dostoiévski e Kafka.

Não obstante, a pergunta permanece: “Por que eu continuo escrevendo depois de nomes, como Homero, Victor Hugo, Machado de Assis, etc.?”. Bem, eu escrevo, porque escrever é a coisa que faço melhor nesta vida. Isto não significa dizer que eu seja tão grandiloquente assim ou que vá ser imortalizada um dia, figurando entre os clássicos. Quem sabe? Que Tirésias poderia prever o meu destino?

No momento, sou apenas uma prosadora crônica. Eu escrevo, porque não sei o que fazer de mim, como disse Clarice Lispector. Escrevo, porque, se não escrever, adoeço com tanta coisa entalada na minha mente. Escrevo, ainda, porque acredito que algo de bom precisa resultar de minha alma fervilhante e angustiada, como ouvi a protagonista do filme Mary Shelley (2018)* dizer. 

No mais, se, para Italo Calvino, é melhor ler os clássicos do que não lê-los, para mim, é melhor escrever do que não escrever.



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* Direção de Haifaa Al Mansour.

24 de out. de 2019

Do romantismo da desilusão à autocensura: comentário sobre os Diários, de Franz Kafka


[...] todos nós sofremos pelo que os deuses nos deram, sofremos terrivelmente (Oscar Wilde).


Os Diários (1), de Franz Kafka, chegaram até mim de um modo deveras inesperado. Estava eu na livraria, passeando entre as estantes, quando vi o livro. Em princípio, pensei que fosse uma obra ficcional, mas, folheando, descobri que se tratava dos diários pessoais de Kafka (de 1910 à 1924). Eu sabia um quase nada sobre a vida do escritor e, como eu gosto de conhecer o processo criativo alheio, decidi levar o livro para casa.

Em poucas páginas, descobri que, assim como eu, Kafka não cabia em si. Também não cabia em sua realidade e entorno imediatos. Por isso, peço licença ao jovem Lukács hegeliano para classificar Kafka como sendo do romantismo da desilusão (2), pois uma alma tão ampla e inquieta como ele não poderia ser classificada de outra forma.
 
Kafka tinha uma alma tão ampla, que ele próprio a reprimia, com medo das consequências de sua expressão, como podemos observar em: “O prodigioso mundo que eu tenho na cabeça. Como, entretanto, me libertar e libertá-lo sem me espedaçar? (KAFKA, 2000, p.95)”; e em: “Devido ao fato de me distanciar da loucura, eu a cultivo; por receio à loucura, sacrifico a expansão e com esta troca, em um plano que não aceita trocas, perdê-la-ei com certeza (KAFKA, 2000, p.156)”. Tal repressão, contudo, intensificou sua inquietude e o adoeceu, muito além do que qualquer hostilidade do mundo, pois ele mesmo se impedia de vicejar tanto quanto possível, ao não dar crédito a sua própria escrita: “Tenho a desgraçada intuição de que não disponho de tempo para concluir o menor trabalho válido [...] (KAFKA, 2000, p.46)”.

Esta parece ser uma mania feia dos que são do romantismo da desilusão: nenhuma expressão material é suficiente para abarcar a nossa alma, como bem diz Kafka: “Nem uma palavra, à medida que eu escrevo, conjuga-se com outra, escuto consoantes que se chocam, soando ocas [...] (KAFKA, 2000, p.28)”. Por isso, tantas vezes nos calamos; guardamos nossas ideias, pois as consideramos intensas ou mirabolantes demais para serem expostas. Algumas, porém, nos escapam, pois o transbordo é inevitável para quem tanto dentro de si. Por este motivo, Kafka escreveu obras como A metamorfose, O castelo e O processo, apesar de todo o caos que existia dentro de si. Kafka, no entanto, não transbordou tudo que guardava e afogou-se em suas próprias angústias (o pai, as mulheres, o trabalho na fábrica, a literatura, a tuberculose).

Que sina é essa dos artistas, especialmente os que se revelam (ou se autoproclamam) do romantismo da desilusão, de não conseguirem expressar sua infinitude através da linguagem finita? Que mundo é esse onde nós mesmos limitamos nossa criatividade a fim de fazermos parte dele?

Kafka morreu sem conseguir essas respostas. E mais: morreu em vida sem saber o quão incrível era a sua criatividade. Morreu simbolicamente anos a fio, por limitar as ideias que iam para o papel, pois a liberdade ofende, como bem disse Clarice Lispector. Só peço a Deus que eu me ofenda cada vez menos com a liberdade de ser tudo que sou.

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1.  KAFKA, Franz. Diários. Trad. Torrieri Guimarães. Belo Horizonte: Itatiaia, 2000.
2. N’ A Teoria do Romance, Lukács descreve três tipos de heróis, conforme a quantidade de ação exercida por cada um. O primeiro tipo, chamado de “idealismo abstrato”, pensa pouquíssimo e age em demasia. Já o segundo tipo, batizado de “romantismo da desilusão”, pensa excessivamente e quase não age, quando age. Por fim, o terceiro tipo é o da “maturidade viril”, o qual, segundo Lukács, consegue alcançar um equilíbrio entre reflexão e ação.

10 de out. de 2019

Inglório


Para Émerson Cardoso


Eu sou um soldado romano. O meu nome não importa. Só o meu cargo importa. Só o meu cargo importa… Minha família está em casa. A mulher mais bela de Roma é minha. E ela me deu um menino com o sorriso mais doce que já vi. Mas eu não posso me comover tanto assim. Eu preciso dominar meus pensamentos e sentimentos. Eu preciso ter clareza mental todo o tempo. Eu não posso me deixar arrastar pelo sentimentalismo. Eu sou um soldado romano. Eu sou. Mas que lugar é este? Não é Roma nem seus arredores. Nunca vi uma noite tão azul em Roma. Mas onde estão os outros soldados? Por que estou sozinho aqui? E ainda fardado… Como vim parar aqui? Não me lembro. Está frio e escuro. Não há uma alma viva há léguas de distância ou, se há, não as vejo. Que lugar é esse? Não há um ser vivo além de mim! Que lugar é esse? Como eu cheguei aqui? Isto parece um pesadelo! Por que ainda estou vestido para a guerra? A guerra… Eu estava na guerra e, depois, apareci aqui. Se estamos em guerra, onde estão todos? Se a guerra acabou, por que não estou em casa amando minha mulher? Que mistério é esse? Que peça é essa que os deuses estão tentando me pregar? A quem vou dizer que sobrevivi à guerra? Onde estão minhas honras e espólios? Espera um pouco. Se eu venci a guerra, o que estou fazendo neste lugar que não conheço, sozinho? Eu venci a guerra? Eu venci? Que lugar é esse? Onde está a minha memória? Que martírio é esse? É pior que a morte! Morte… Eu estou morto? Eu morri na guerra? E por que ainda estou fardado? Se estou morto, por que ainda me sinto vivo? AH! Alguém me diga o que está acontecendo? Eu quero voltar para casa. Eu quero a minha mãe! Choro como um menino e minha mãe surge luminosa para me salvar. Eu era um soldado romano. Eu fui um soldado romano. Nos braços de minha mãe, sou apenas uma alma angustiada.


25 de jun. de 2019

A dimensão dos personagens

Desenho by: Escher

Em geometria, temos as figuras planas (círculo, quadrado, retângulo, etc.) e as figuras espaciais (esfera, cubo, cilindro, etc.). A diferença básica entre elas é que as primeiras são bidimensionais e, as segundas, tridimensionais. Isto implica dizer que, enquanto um círculo possui apenas duas dimensões (comprimento e largura), uma esfera possui três (largura, comprimento e profundidade). Isto, na matemática, funciona perfeitamente. Porém, quando transpomos isso para a literatura, torna-se problemático.

Em seu livro Aspectos do romance, E. M. Forster propõe a existência de personagens planas e personagens esféricas. Para o autor, as personagens esféricas são mais complexas que as planas. Neste ponto, ele acerta na metáfora que utiliza. Se imaginarmos as personagens planas como círculos e as personagens esféricas como esferas, estas, como a própria geometria aponta, possuem uma dimensão a mais do que os círculos, que é justamente a profundidade. Contudo, o próprio conceito de profundidade pode ser muito vago, pois, tomando como exemplo as marés, podemos ter tanto uma maré de vinte centímetros, quanto uma maré de dois metros. Entretanto, o aspecto mais problemático da proposta de Forster é sua afirmação de que as personagens planas não mudam. Como um personagem pode permanecer inalterado no decorrer de toda a narrativa, sobretudo em se tratando de uma narrativa longa, como um romance?

Ao menos no que concerne à literatura ocidental, a estrutura básica de uma narrativa é composta por três etapas ou fases: 1ª) há uma ordem vigente; 2ª) esta ordem é quebrada; e 3ª) o herói é convocado para restabelecer a ordem anterior ou para criar uma nova ordem. Neste percurso em busca do restabelecimento da ordem pregressa ou da implantação de uma nova ordem, geralmente, o herói sofre algumas alterações em seu comportamento ou em sua visão de mundo. Decerto que, assim como as marés podem oscilar entre vinte centímetros e dois metros, a transformação dos heróis também varia de um herói para o outro. Portanto, podemos ter um herói como Nando, de Quarup, que muda radicalmente seu modo de ser e de ver o mundo, como podemos ter um personagem como o mestre José Amaro, de Fogo Morto, que, aparentemente, muda pouco ou quase nada. Por conseguinte, apesar de a transformação de um herói poder se revelar mais notória do que a de outro, a chance de um personagem ser totalmente plano é ínfima, sobretudo se for um personagem de destaque na trama, como é o caso do herói ou protagonista. Ao meu ver, um personagem precisa ser muito pobre ― em termos de construção ― para iniciar e terminar a narrativa no mesmo ponto.

Como bem disse Heráclito de Éfeso, “nada é permanente, exceto a mudança”. E, se o personagem se propõe a ser uma mimesis do ser humano, não há como ele ser o mesmo do início ao fim do enredo. Logo, não vejo como um personagem possa ser totalmente plano. Em vez disso, acredito sinceramente, como acadêmica e como escritora, que nenhum herói sai incólume de sua trajetória.

9 de jun. de 2019

Do casarão sem janelas à janela da alma


“Quem olha para fora sonha. Quem olha para dentro desperta”, afirma Carl Gustav Jung, em uma de suas frases mais célebres. Entretanto, às vezes, é o outro quem abre os nossos olhos, ou seja, é através do outro que temos acesso a aspectos nossos. E foi exatamente isso o que aconteceu quando conheci a prosa poética do escritor cearense Émerson Cardoso.

O Casarão sem Janelas (2018), romance que levou dezessete anos para ser erigido, faz jus ao título: as histórias de Lina, Augusta, Angelita, Maria Tacita, Ana e Dos Anjos não nos deixam respirar. Mulheres extremamente maltratadas pela vida, mas com uma densidade psicológica fascinante. Mulheres tão inteiras, tão humanas, com suas luzes e sombras, com suas dores e sonhos despedaçados, que eu, tão aristotélica e lukacsiana, rendi-me a este romance memorialístico e altamente descritivo. Além da densidade psicológica das heroínas, o que mais me prendeu ao romance, da primeira à última linha, foi o profundo lirismo da prosa de Émerson. Tanto que, vezes sem conta, eu tive a sensação de estar lendo poesia. Nesses momentos, eu conseguia ouvir as personagens cantando suas dores. E são tantas dores: mortes, assassinatos, fome, ciúme, assédio, prostituição, mandos e desmandos no interior do Ceará, etc. E tanta humanidade assim, confesso, me arrancou abruptamente de minha zona de conforto.

Desde que comecei a escrever, meus personagens são, em sua maioria, pequeno-burgueses. Uma burguesia em crise. Indivíduos, que, embora tenham quase tudo que o dinheiro pode comprar, sentem-se angustiados e infelizes; atormentados dia e noite por seus próprios pensamentos e emoções. Esses personagens, que, para Georg Lukács, seriam do romantismo da desilusão, experimentam um sentimento de inadequação tal, que não encontram refúgio nem dentro, nem fora de si. E esse sentimento de inadequação ao mundo sempre foi a grande tônica das minhas obras e o ponto nevrálgico dos meus personagens. Então, quando me deparo com personagens tão crus e de alma tão exposta, como os d’O Casarão sem Janelas, especialmente suas protagonistas, eu paro e repenso os meus; repenso o meu ofício: Será que eu sou uma escritora tão alienada que o mundo, com todas as suas misérias e mazelas, não aparece em meus romances? Que la vie en rose é esse que meus personagens habitam, onde, na maior parte das vezes, os únicos problemas que eles enfrentam são mentais ou emocionais? Onde estão a fome e a miséria? Onde estão a violência, os tabus e as desigualdades todas?.

Decerto que esse mundinho pequeno-burguês, predominante em minhas narrativas, também integra o que chamamos de realidade. Contudo, quando sou apresentada a construções como a de Émerson, com personagens que se fundem e se confundem com a história do chão onde pisam, eu me questiono quanto ao nível de humanidade e de presença dos meus personagens: Será que meus personagens são tão egocêntricos que só conseguem ver a si próprios (seus pensamentos, sonhos e emoções)? E o narrador? Por que ele não menciona o mundo?. Alguns podem alegar que isto é um traço da minha poética. Será?

Devo confessar que,  nestes vinte anos de ofício, eu sempre tive uma resistência muito grande a descrever espaços e até mesmo a descrever fisicamente os personagens. Tanto que, até bem pouco tempo atrás, não havia, em minhas obras, qualquer menção à cidade de João Pessoa (PB). Eu preferia criar nomes fictícios para os espaços diegéticos do que inseri-los em minha terra natal. E, até hoje, eu não suporto quem interrompe a narrativa para descrever o que quer que seja. Nesse ponto, eu sempre fui lukacsiana: eu quero saber o que os personagens estão pensando, fazendo, sentindo, e não a cor das calças que usaram ontem. E, de certa forma, eu me especializei em personagens do romantismo da desilusão, para não ter que descrever os cenários. Minha resistência quanto à descrição só começou a ceder quando conheci Kafka e Dostoiévski, pois ambos os autores conseguem descrever enquanto narram, ao invés de suspender a narrativa para inserir a descrição. Mesmo assim, ainda sinto que meus personagens não estão totalmente inseridos no mundo que os cerca, diferentemente dos personagens de Émerson.

Em O Casarão sem Janelas, o casarão transforma a vida de todos aqueles que passam por ele. Quantas memórias estão impregnadas em suas paredes? Quantas mortes, quantos amores estão gravados do piso ao teto? Quanta violência e quanto silenciamento o casarão não presencia? Em verdade, o casarão está impregnado na pele de cada uma de suas moradoras e influencia sobremaneira em suas ações. Logo, o casarão é muito mais do que o espaço físico onde a história se passa. Ele é um dos personagens do romance. Tanto que, em sua existência e presença,  redireciona a vida de todas as protagonistas. Isso mexeu muito comigo: Como um lugar pode ser tão determinante para o desenvolvimento de uma narrativa?. Tão determinante que, se o casarão não existisse, a vida de Lina, Augusta, Angelita, Maria Tacita, Ana e Dos Anjos seria completamente diversa.

Desta forma, posso dizer que O Casarão sem Janelas revelou-me não apenas a janela da alma de suas heroínas, mas também a janela de minha própria alma. Através do claustro imposto pelo casarão, sem qualquer acesso ao mundo, voltei-me para dentro de mim e percebi o quão restrito é o mundo dos meus personagens. Fez-me ver que eu é que estava em um casarão sem janelas; sempre vendo os mesmos personagens pelos corredores, enquanto um sem-número de personagens lá fora esperam uma oportunidade para entrar.

Neste momento, encerro O Casarão sem Janelas e este texto, com uma necessidade premente de deixar meus personagens mais complexos e multifacetados. Além disso, gostaria de sair desse mundinho pequeno-burguês e expandir minha visão para outros aspectos dessa macroestrutura, a qual chamamos de realidade.

23 de fev. de 2019

Escrita camumbembe


Eu fixava o papel, os olhos já secos. Mais uma noite mal dormida. Eu olhava para o papel e as letras dançavam na minha frente. Eu sabia que elas estavam bonitinhas, em fila indiana, mas mesmo assim elas dançavam o crioulo doido na minha cabeça. Eu lia as frases e, ao terminar, já não sabia o que a sintaxe queria dizer. Ao terminar o parágrafo, então, sentia como se estivesse lendo um texto em grego. Mas eu escrevi esse texto. Como o meu cérebro não o está compreendendo? Tomo um gole de café e assanho meus cabelos. O que é isso? Por que o sentido do texto se extravia dessa maneira? Ou serão meus sentidos que desfalecem diante de mim? Já estou na segunda xícara de café e pareço vomitar um sonho mal dito. Eu teço e desteço as palavras quase num transe rítmico e todo o tecido soa disforme. Onde está a paciência lúcida de Penélope? Eu não consigo ler o meu próprio trabalho. Sinto-me o próprio mestre Zé Amaro, odiando minha escrita. Foda-se. Não vou mais ler essa merda. Deixa o orientador ver primeiro. Lá vem ele. O retrato de Dorian Gray treme em minhas mãos. Nem sei mais o que mostrar ao orientador. Esqueço de lhe mostrar uns pedaços. Eu estou num estado tão deplorável que acho que o Diabo não ia querer minha consciência nem de graça, avalie pagando por ela. Mesmo assim, o orientador não risca muito meu trabalho. Pede apenas que eu faça algumas ressalvas aqui e ali. E pede também para que eu tenha calma; que eu deguste mais o desdobramento da análise. Como, se essa escrita me parece camumbembe? Onde está o acabamento fino da sintaxe? Daqui a pouco estou virando lobisomem e não torno a me orgulhar da minha escrita. Eu que já escrevi cartas para um comendador, fazendo essa escrita camumbembe. Desculpe-me o amargor. Estou mesmo um purgante. Apesar de mim, amanhã há de ser outro dia.

18 de fev. de 2019

A sombra do eu




       Olho, no espelho, meu corpo. Suspiro, desapontada. Meu corpo. Meu… corpo… Que corpo estranho! Eu habito mesmo esse corpo? Minha respiração se altera; meus olhos se agigantam, interrogativos. Tudo me parece tão grande, tão desproporcional! Por que meu corpo é tão grande, tão largo? Fixo o espelho, indignada. Eu tenho 95cm de busto e 105cm de quadril, em 1,70m. Esse corpo é feminino o bastante para você? Eu sou feminina o bastante para você? Eu me sinto tão larga, tão quadrada; os ombros imensos, como se eu pudesse segurar o mundo nas costas. Meus olhos cravam a mim, incógnitos. Eu não sei se eu realmente me vejo. Eu não sei se eu me vejo três vezes pior do que eu sou. Bufo, impaciente. Eu não sei se esse espelho é daqueles que aumentam e deformam as coisas. Talvez a deformação esteja em meus olhos. Talvez sejam os meus olhos que não conseguem ver a beleza deste corpo. Você consegue ver a graça feminina que há neste corpo? Você consegue ver a doçura que há neste corpo? Eu não sei se eu vejo ou se me recuso a ver. Suspiro, abatida. Eu me vejo tão distante do ser mulher. Onde está a feminilidade; os gestos delicados e amorosos deste corpo? Esse corpo é feminino o bastante para você? Esse corpo é amável o bastante para você? Contemplo meu corpo e rejeito-o veementemente. Eu não me sinto feminina. Em verdade, eu sempre me senti muito masculina. Eu sempre gostei da energia masculina; dessa força propulsora que faz tudo acontecer. Eu amo esse instinto exploratório e penetrante, que me leva a descobrir coisas novas o tempo inteiro. Meus olhos acendem, vivificados. Talvez eu seja tão apaixonada pela energia yang, pela energia masculina, que nasci nesse corpo de mulher para ter os homens ao pé de mim. Mas tudo que consegui foi tê-los como irmãos; como companheiros de aventuras. Eu não sei o que pensar. Eu não quero pensar. Eu não quero lembrar que eu tenho um corpo. Eu não quero lembrar que esse corpo é largo e desengonçado. Eu não quero ter esse corpo. Não quero! E esmurro o vidro do espelho até não sobrar mais eu algum.