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24 de out. de 2019

Do romantismo da desilusão à autocensura: comentário sobre os Diários, de Franz Kafka


[...] todos nós sofremos pelo que os deuses nos deram, sofremos terrivelmente (Oscar Wilde).


Os Diários (1), de Franz Kafka, chegaram até mim de um modo deveras inesperado. Estava eu na livraria, passeando entre as estantes, quando vi o livro. Em princípio, pensei que fosse uma obra ficcional, mas, folheando, descobri que se tratava dos diários pessoais de Kafka (de 1910 à 1924). Eu sabia um quase nada sobre a vida do escritor e, como eu gosto de conhecer o processo criativo alheio, decidi levar o livro para casa.

Em poucas páginas, descobri que, assim como eu, Kafka não cabia em si. Também não cabia em sua realidade e entorno imediatos. Por isso, peço licença ao jovem Lukács hegeliano para classificar Kafka como sendo do romantismo da desilusão (2), pois uma alma tão ampla e inquieta como ele não poderia ser classificada de outra forma.
 
Kafka tinha uma alma tão ampla, que ele próprio a reprimia, com medo das consequências de sua expressão, como podemos observar em: “O prodigioso mundo que eu tenho na cabeça. Como, entretanto, me libertar e libertá-lo sem me espedaçar? (KAFKA, 2000, p.95)”; e em: “Devido ao fato de me distanciar da loucura, eu a cultivo; por receio à loucura, sacrifico a expansão e com esta troca, em um plano que não aceita trocas, perdê-la-ei com certeza (KAFKA, 2000, p.156)”. Tal repressão, contudo, intensificou sua inquietude e o adoeceu, muito além do que qualquer hostilidade do mundo, pois ele mesmo se impedia de vicejar tanto quanto possível, ao não dar crédito a sua própria escrita: “Tenho a desgraçada intuição de que não disponho de tempo para concluir o menor trabalho válido [...] (KAFKA, 2000, p.46)”.

Esta parece ser uma mania feia dos que são do romantismo da desilusão: nenhuma expressão material é suficiente para abarcar a nossa alma, como bem diz Kafka: “Nem uma palavra, à medida que eu escrevo, conjuga-se com outra, escuto consoantes que se chocam, soando ocas [...] (KAFKA, 2000, p.28)”. Por isso, tantas vezes nos calamos; guardamos nossas ideias, pois as consideramos intensas ou mirabolantes demais para serem expostas. Algumas, porém, nos escapam, pois o transbordo é inevitável para quem tanto dentro de si. Por este motivo, Kafka escreveu obras como A metamorfose, O castelo e O processo, apesar de todo o caos que existia dentro de si. Kafka, no entanto, não transbordou tudo que guardava e afogou-se em suas próprias angústias (o pai, as mulheres, o trabalho na fábrica, a literatura, a tuberculose).

Que sina é essa dos artistas, especialmente os que se revelam (ou se autoproclamam) do romantismo da desilusão, de não conseguirem expressar sua infinitude através da linguagem finita? Que mundo é esse onde nós mesmos limitamos nossa criatividade a fim de fazermos parte dele?

Kafka morreu sem conseguir essas respostas. E mais: morreu em vida sem saber o quão incrível era a sua criatividade. Morreu simbolicamente anos a fio, por limitar as ideias que iam para o papel, pois a liberdade ofende, como bem disse Clarice Lispector. Só peço a Deus que eu me ofenda cada vez menos com a liberdade de ser tudo que sou.

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1.  KAFKA, Franz. Diários. Trad. Torrieri Guimarães. Belo Horizonte: Itatiaia, 2000.
2. N’ A Teoria do Romance, Lukács descreve três tipos de heróis, conforme a quantidade de ação exercida por cada um. O primeiro tipo, chamado de “idealismo abstrato”, pensa pouquíssimo e age em demasia. Já o segundo tipo, batizado de “romantismo da desilusão”, pensa excessivamente e quase não age, quando age. Por fim, o terceiro tipo é o da “maturidade viril”, o qual, segundo Lukács, consegue alcançar um equilíbrio entre reflexão e ação.

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