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23 de fev. de 2019

Escrita camumbembe


Eu fixava o papel, os olhos já secos. Mais uma noite mal dormida. Eu olhava para o papel e as letras dançavam na minha frente. Eu sabia que elas estavam bonitinhas, em fila indiana, mas mesmo assim elas dançavam o crioulo doido na minha cabeça. Eu lia as frases e, ao terminar, já não sabia o que a sintaxe queria dizer. Ao terminar o parágrafo, então, sentia como se estivesse lendo um texto em grego. Mas eu escrevi esse texto. Como o meu cérebro não o está compreendendo? Tomo um gole de café e assanho meus cabelos. O que é isso? Por que o sentido do texto se extravia dessa maneira? Ou serão meus sentidos que desfalecem diante de mim? Já estou na segunda xícara de café e pareço vomitar um sonho mal dito. Eu teço e desteço as palavras quase num transe rítmico e todo o tecido soa disforme. Onde está a paciência lúcida de Penélope? Eu não consigo ler o meu próprio trabalho. Sinto-me o próprio mestre Zé Amaro, odiando minha escrita. Foda-se. Não vou mais ler essa merda. Deixa o orientador ver primeiro. Lá vem ele. O retrato de Dorian Gray treme em minhas mãos. Nem sei mais o que mostrar ao orientador. Esqueço de lhe mostrar uns pedaços. Eu estou num estado tão deplorável que acho que o Diabo não ia querer minha consciência nem de graça, avalie pagando por ela. Mesmo assim, o orientador não risca muito meu trabalho. Pede apenas que eu faça algumas ressalvas aqui e ali. E pede também para que eu tenha calma; que eu deguste mais o desdobramento da análise. Como, se essa escrita me parece camumbembe? Onde está o acabamento fino da sintaxe? Daqui a pouco estou virando lobisomem e não torno a me orgulhar da minha escrita. Eu que já escrevi cartas para um comendador, fazendo essa escrita camumbembe. Desculpe-me o amargor. Estou mesmo um purgante. Apesar de mim, amanhã há de ser outro dia.

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