Eu fixava o
papel, os olhos já secos. Mais uma noite mal dormida. Eu olhava para o papel e
as letras dançavam na minha frente. Eu sabia que elas estavam bonitinhas, em
fila indiana, mas mesmo assim elas dançavam o crioulo doido na minha cabeça. Eu
lia as frases e, ao terminar, já não sabia o que a sintaxe queria dizer. Ao
terminar o parágrafo, então, sentia como se estivesse lendo um texto em grego.
Mas eu escrevi esse texto. Como o meu cérebro não o está compreendendo? Tomo um
gole de café e assanho meus cabelos. O que é isso? Por que o sentido do texto
se extravia dessa maneira? Ou serão meus sentidos que desfalecem diante de mim?
Já estou na segunda xícara de café e pareço vomitar um sonho mal dito. Eu teço
e desteço as palavras quase num transe rítmico e todo o tecido soa disforme.
Onde está a paciência lúcida de Penélope? Eu não consigo ler o meu próprio
trabalho. Sinto-me o próprio mestre Zé Amaro, odiando minha escrita. Foda-se.
Não vou mais ler essa merda. Deixa o orientador ver primeiro. Lá vem ele. O
retrato de Dorian Gray treme em minhas mãos. Nem sei mais o que mostrar ao
orientador. Esqueço de lhe mostrar uns pedaços. Eu estou num estado tão
deplorável que acho que o Diabo não ia querer minha consciência nem de graça,
avalie pagando por ela. Mesmo assim, o orientador não risca muito meu trabalho.
Pede apenas que eu faça algumas ressalvas aqui e ali. E pede também para que eu
tenha calma; que eu deguste mais o desdobramento da análise. Como, se essa
escrita me parece camumbembe? Onde está o acabamento fino da sintaxe? Daqui a
pouco estou virando lobisomem e não torno a me orgulhar da minha escrita. Eu
que já escrevi cartas para um comendador, fazendo essa escrita camumbembe.
Desculpe-me o amargor. Estou mesmo um purgante. Apesar de mim, amanhã há de ser
outro dia.

Nenhum comentário:
Postar um comentário