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| Na foto, o escritor francês Victor Hugo. |
Recentemente, tenho acompanhado as postagens de um grande mestre sobre Os Miseráveis, de Victor Hugo. No dia do Natal, diante de uma explanação desse mestre sobre a descrição minuciosa dos esgotos de Paris no referido livro, pensei, mas só comentei no dia seguinte: “Por que continuamos a escrever depois de grandes como Hugo? Ou melhor: por que eu continuo a escrever?”
É verdade ― e isso não deveria ser motivo de orgulho ― que o comportamento humano mudou muito pouco de Homero para cá. Ainda há amor, guerra e traição. Ainda nos angustiamos com ausências, mortes e paixões não correspondidas. Ainda nos perdemos por somenos e ansiamos por nossa vitória final e completa. Almejamos o sopro divino das Musas, mas não queremos esperar para recebê-lo.
De fato, quase 3.000 anos depois, ainda estamos aprendendo a administrar e a expressar as mesmas emoções e os mesmos conflitos existenciais. Apesar disso, cada escritor tem uma forma particular de processar as situações da vida e as questões anímicas candentes e de materializá-las em suas obras. Ademais, também é verdade que nenhum escritor consegue dizer tudo, o que é muito bom para nós, que insistimos em escrever depois dos clássicos.
Acredito sinceramente que cada escritor é uma soma de todos os seus mestres. À medida que lemos os mais diversos autores, vamos incorporando em nossa escrita traços destes escritores. E podemos incorporar estes traços até de forma inconsciente: de tanto ler o autor X, pegamos os mesmos cacoetes. Até que ocorre uma alquimia interna e, da combinação desses elementos estilísticos alheios, surge a nossa estilística própria.
Gostaria de ressaltar, porém, que não se trata de uma cópia deslavada, pois àquele traço somamos outras características, dando o nosso tom pessoal a ele. Por exemplo: com Dostoiévski e Kafka, aprendi a descrever enquanto narro, para não precisar suspender a narrativa durante a descrição de algo ou de alguém. Contudo, posso garantir que a minha escrita é bem diferente das escritas de Dostoiévski e Kafka.
Não obstante, a pergunta permanece: “Por que eu continuo escrevendo depois de nomes, como Homero, Victor Hugo, Machado de Assis, etc.?”. Bem, eu escrevo, porque escrever é a coisa que faço melhor nesta vida. Isto não significa dizer que eu seja tão grandiloquente assim ou que vá ser imortalizada um dia, figurando entre os clássicos. Quem sabe? Que Tirésias poderia prever o meu destino?
No momento, sou apenas uma prosadora crônica. Eu escrevo, porque não sei o que fazer de mim, como disse Clarice Lispector. Escrevo, porque, se não escrever, adoeço com tanta coisa entalada na minha mente. Escrevo, ainda, porque acredito que algo de bom precisa resultar de minha alma fervilhante e angustiada, como ouvi a protagonista do filme Mary Shelley (2018)* dizer.
No mais, se, para Italo Calvino, é melhor ler os clássicos do que não lê-los, para mim, é melhor escrever do que não escrever.
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* Direção de Haifaa Al Mansour.

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