Olho, no espelho, meu corpo. Suspiro, desapontada. Meu corpo. Meu… corpo… Que corpo estranho! Eu habito mesmo esse corpo? Minha respiração se altera; meus olhos se agigantam, interrogativos. Tudo me parece tão grande, tão desproporcional! Por que meu corpo é tão grande, tão largo? Fixo o espelho, indignada. Eu tenho 95cm de busto e 105cm de quadril, em 1,70m. Esse corpo é feminino o bastante para você? Eu sou feminina o bastante para você? Eu me sinto tão larga, tão quadrada; os ombros imensos, como se eu pudesse segurar o mundo nas costas. Meus olhos cravam a mim, incógnitos. Eu não sei se eu realmente me vejo. Eu não sei se eu me vejo três vezes pior do que eu sou. Bufo, impaciente. Eu não sei se esse espelho é daqueles que aumentam e deformam as coisas. Talvez a deformação esteja em meus olhos. Talvez sejam os meus olhos que não conseguem ver a beleza deste corpo. Você consegue ver a graça feminina que há neste corpo? Você consegue ver a doçura que há neste corpo? Eu não sei se eu vejo ou se me recuso a ver. Suspiro, abatida. Eu me vejo tão distante do ser mulher. Onde está a feminilidade; os gestos delicados e amorosos deste corpo? Esse corpo é feminino o bastante para você? Esse corpo é amável o bastante para você? Contemplo meu corpo e rejeito-o veementemente. Eu não me sinto feminina. Em verdade, eu sempre me senti muito masculina. Eu sempre gostei da energia masculina; dessa força propulsora que faz tudo acontecer. Eu amo esse instinto exploratório e penetrante, que me leva a descobrir coisas novas o tempo inteiro. Meus olhos acendem, vivificados. Talvez eu seja tão apaixonada pela energia yang, pela energia masculina, que nasci nesse corpo de mulher para ter os homens ao pé de mim. Mas tudo que consegui foi tê-los como irmãos; como companheiros de aventuras. Eu não sei o que pensar. Eu não quero pensar. Eu não quero lembrar que eu tenho um corpo. Eu não quero lembrar que esse corpo é largo e desengonçado. Eu não quero ter esse corpo. Não quero! E esmurro o vidro do espelho até não sobrar mais eu algum.

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