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| Desenho by: Escher |
Em geometria, temos as figuras planas (círculo, quadrado, retângulo, etc.) e as figuras espaciais (esfera, cubo, cilindro, etc.). A diferença básica entre elas é que as primeiras são bidimensionais e, as segundas, tridimensionais. Isto implica dizer que, enquanto um círculo possui apenas duas dimensões (comprimento e largura), uma esfera possui três (largura, comprimento e profundidade). Isto, na matemática, funciona perfeitamente. Porém, quando transpomos isso para a literatura, torna-se problemático.
Em seu livro Aspectos do romance, E. M. Forster propõe a existência de personagens planas e personagens esféricas. Para o autor, as personagens esféricas são mais complexas que as planas. Neste ponto, ele acerta na metáfora que utiliza. Se imaginarmos as personagens planas como círculos e as personagens esféricas como esferas, estas, como a própria geometria aponta, possuem uma dimensão a mais do que os círculos, que é justamente a profundidade. Contudo, o próprio conceito de profundidade pode ser muito vago, pois, tomando como exemplo as marés, podemos ter tanto uma maré de vinte centímetros, quanto uma maré de dois metros. Entretanto, o aspecto mais problemático da proposta de Forster é sua afirmação de que as personagens planas não mudam. Como um personagem pode permanecer inalterado no decorrer de toda a narrativa, sobretudo em se tratando de uma narrativa longa, como um romance?
Ao menos no que concerne à literatura ocidental, a estrutura básica de uma narrativa é composta por três etapas ou fases: 1ª) há uma ordem vigente; 2ª) esta ordem é quebrada; e 3ª) o herói é convocado para restabelecer a ordem anterior ou para criar uma nova ordem. Neste percurso em busca do restabelecimento da ordem pregressa ou da implantação de uma nova ordem, geralmente, o herói sofre algumas alterações em seu comportamento ou em sua visão de mundo. Decerto que, assim como as marés podem oscilar entre vinte centímetros e dois metros, a transformação dos heróis também varia de um herói para o outro. Portanto, podemos ter um herói como Nando, de Quarup, que muda radicalmente seu modo de ser e de ver o mundo, como podemos ter um personagem como o mestre José Amaro, de Fogo Morto, que, aparentemente, muda pouco ou quase nada. Por conseguinte, apesar de a transformação de um herói poder se revelar mais notória do que a de outro, a chance de um personagem ser totalmente plano é ínfima, sobretudo se for um personagem de destaque na trama, como é o caso do herói ou protagonista. Ao meu ver, um personagem precisa ser muito pobre ― em termos de construção ― para iniciar e terminar a narrativa no mesmo ponto.
Como bem disse Heráclito de Éfeso, “nada é permanente, exceto a mudança”. E, se o personagem se propõe a ser uma mimesis do ser humano, não há como ele ser o mesmo do início ao fim do enredo. Logo, não vejo como um personagem possa ser totalmente plano. Em vez disso, acredito sinceramente, como acadêmica e como escritora, que nenhum herói sai incólume de sua trajetória.

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