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9 de jun. de 2019

Do casarão sem janelas à janela da alma


“Quem olha para fora sonha. Quem olha para dentro desperta”, afirma Carl Gustav Jung, em uma de suas frases mais célebres. Entretanto, às vezes, é o outro quem abre os nossos olhos, ou seja, é através do outro que temos acesso a aspectos nossos. E foi exatamente isso o que aconteceu quando conheci a prosa poética do escritor cearense Émerson Cardoso.

O Casarão sem Janelas (2018), romance que levou dezessete anos para ser erigido, faz jus ao título: as histórias de Lina, Augusta, Angelita, Maria Tacita, Ana e Dos Anjos não nos deixam respirar. Mulheres extremamente maltratadas pela vida, mas com uma densidade psicológica fascinante. Mulheres tão inteiras, tão humanas, com suas luzes e sombras, com suas dores e sonhos despedaçados, que eu, tão aristotélica e lukacsiana, rendi-me a este romance memorialístico e altamente descritivo. Além da densidade psicológica das heroínas, o que mais me prendeu ao romance, da primeira à última linha, foi o profundo lirismo da prosa de Émerson. Tanto que, vezes sem conta, eu tive a sensação de estar lendo poesia. Nesses momentos, eu conseguia ouvir as personagens cantando suas dores. E são tantas dores: mortes, assassinatos, fome, ciúme, assédio, prostituição, mandos e desmandos no interior do Ceará, etc. E tanta humanidade assim, confesso, me arrancou abruptamente de minha zona de conforto.

Desde que comecei a escrever, meus personagens são, em sua maioria, pequeno-burgueses. Uma burguesia em crise. Indivíduos, que, embora tenham quase tudo que o dinheiro pode comprar, sentem-se angustiados e infelizes; atormentados dia e noite por seus próprios pensamentos e emoções. Esses personagens, que, para Georg Lukács, seriam do romantismo da desilusão, experimentam um sentimento de inadequação tal, que não encontram refúgio nem dentro, nem fora de si. E esse sentimento de inadequação ao mundo sempre foi a grande tônica das minhas obras e o ponto nevrálgico dos meus personagens. Então, quando me deparo com personagens tão crus e de alma tão exposta, como os d’O Casarão sem Janelas, especialmente suas protagonistas, eu paro e repenso os meus; repenso o meu ofício: Será que eu sou uma escritora tão alienada que o mundo, com todas as suas misérias e mazelas, não aparece em meus romances? Que la vie en rose é esse que meus personagens habitam, onde, na maior parte das vezes, os únicos problemas que eles enfrentam são mentais ou emocionais? Onde estão a fome e a miséria? Onde estão a violência, os tabus e as desigualdades todas?.

Decerto que esse mundinho pequeno-burguês, predominante em minhas narrativas, também integra o que chamamos de realidade. Contudo, quando sou apresentada a construções como a de Émerson, com personagens que se fundem e se confundem com a história do chão onde pisam, eu me questiono quanto ao nível de humanidade e de presença dos meus personagens: Será que meus personagens são tão egocêntricos que só conseguem ver a si próprios (seus pensamentos, sonhos e emoções)? E o narrador? Por que ele não menciona o mundo?. Alguns podem alegar que isto é um traço da minha poética. Será?

Devo confessar que,  nestes vinte anos de ofício, eu sempre tive uma resistência muito grande a descrever espaços e até mesmo a descrever fisicamente os personagens. Tanto que, até bem pouco tempo atrás, não havia, em minhas obras, qualquer menção à cidade de João Pessoa (PB). Eu preferia criar nomes fictícios para os espaços diegéticos do que inseri-los em minha terra natal. E, até hoje, eu não suporto quem interrompe a narrativa para descrever o que quer que seja. Nesse ponto, eu sempre fui lukacsiana: eu quero saber o que os personagens estão pensando, fazendo, sentindo, e não a cor das calças que usaram ontem. E, de certa forma, eu me especializei em personagens do romantismo da desilusão, para não ter que descrever os cenários. Minha resistência quanto à descrição só começou a ceder quando conheci Kafka e Dostoiévski, pois ambos os autores conseguem descrever enquanto narram, ao invés de suspender a narrativa para inserir a descrição. Mesmo assim, ainda sinto que meus personagens não estão totalmente inseridos no mundo que os cerca, diferentemente dos personagens de Émerson.

Em O Casarão sem Janelas, o casarão transforma a vida de todos aqueles que passam por ele. Quantas memórias estão impregnadas em suas paredes? Quantas mortes, quantos amores estão gravados do piso ao teto? Quanta violência e quanto silenciamento o casarão não presencia? Em verdade, o casarão está impregnado na pele de cada uma de suas moradoras e influencia sobremaneira em suas ações. Logo, o casarão é muito mais do que o espaço físico onde a história se passa. Ele é um dos personagens do romance. Tanto que, em sua existência e presença,  redireciona a vida de todas as protagonistas. Isso mexeu muito comigo: Como um lugar pode ser tão determinante para o desenvolvimento de uma narrativa?. Tão determinante que, se o casarão não existisse, a vida de Lina, Augusta, Angelita, Maria Tacita, Ana e Dos Anjos seria completamente diversa.

Desta forma, posso dizer que O Casarão sem Janelas revelou-me não apenas a janela da alma de suas heroínas, mas também a janela de minha própria alma. Através do claustro imposto pelo casarão, sem qualquer acesso ao mundo, voltei-me para dentro de mim e percebi o quão restrito é o mundo dos meus personagens. Fez-me ver que eu é que estava em um casarão sem janelas; sempre vendo os mesmos personagens pelos corredores, enquanto um sem-número de personagens lá fora esperam uma oportunidade para entrar.

Neste momento, encerro O Casarão sem Janelas e este texto, com uma necessidade premente de deixar meus personagens mais complexos e multifacetados. Além disso, gostaria de sair desse mundinho pequeno-burguês e expandir minha visão para outros aspectos dessa macroestrutura, a qual chamamos de realidade.

Um comentário:

  1. Obrigado pela leitura do livro e pelas considerações! Você me deixou comovido e entusiasmado! Abraço!

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