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| Tela by: Jamilson Fonseca |
Nunca volte para onde você foi feliz. Está tão bom aqui. O
que você vai fazer lá fora?
Na poltrona junto à cama, o sax reinava soberano, quando os
dois entraram no quarto. A jovem, curiosa, afagou todo o cômodo com o olhar.
Seus olhinhos miúdos, encantados, detiveram-se, sobretudo, no sax. Polido, o
instrumento beijava o olhar da jovem com a sua luz. Era o próprio sol diante do
amor, enquanto a lua amansava lá fora. Os olhos da moça brilharam tanto, que o
jovem encorajou-se a perguntar:
- Você gosta do som?
- Oi? Você disse alguma coisa? - inquiriu, abrindo levemente
a porta de sua distração.
- Eu perguntei se você gosta do som do sax.
- Ah! - ruborizou, momentaneamente. - Eu adoro! Sou
loucamente apaixonada! - E sorriu, tímida. - Acho extremamente sensual.
- Quer que eu toque um pouco?
Seus olhos cerrando-se, enquanto o sorriso se alargava em
seu rosto, foi a melhor resposta possível. O rapaz, levemente rubro,
aproximou-se do astro rei e tomou-o entre os dedos. Desta vez, foi ele quem
fechou os olhos.
O som, sinuoso, dançava para a jovem; enlaçava-a. Ela sentia
cada mínima parte do seu corpo fundir-se aos acordes e entregar-se totalmente
em seus braços. Seu prazer era tamanho, que o sorriso mantinha seus olhos
fechados. Ela, ainda de pé, desmanchava-se. Tanto, que o rapaz teve a nítida
sensação de que ela iria cair. Talvez caísse em algum sonho. Talvez sonhasse em
acordar. O rapaz, percorrendo o sax, a observava tão extasiado quanto ela
própria. E, ao terminar a canção, aproximou-se da jovem e sentiu-a regressar
parcialmente de seu transe. Ela, ao percebê-lo contemplando-a, cerrou os olhos
rapidamente e abriu-os em seguida. O movimento de suas pálpebras era tão sutil,
tão doce, que derreteu o jovem músico:
- Por quem seus olhos dobram?
- Meus olhos? - repetiu, os olhos semicerrados. - Por você.
A mão do jovem, nesse instante, acariciou o rosto dela com o
mesmo êxtase com que, ainda há pouco, acariciara o sax. O coração d’ambos batia
freneticamente. Os olhos dele desmanchavam-se tanto quanto os dela. As bocas,
aos poucos, se roçaram, se massagearam, se acoplaram uma à outra. Foi tão
profundo. Tão intenso. Ela, em seus braços, via-o de dentro.
Agora, os olhos já não se viam mais. Eles estavam tão
fundidos, tão imersos um no outro, que já não precisavam olhar-se para
desnudarem um ao outro. Sem nenhum som, exceto o da respiração, conseguiam
sentir como estava o olhar próprio e o alheio; se os olhos estavam brilhando,
inquietos ou desmanchados. Um sorria para o outro e este sorriso irradiava por
todos os poros; por todas as carícias.
Nunca volte para onde você foi feliz. Esteja
onde você é feliz. Ser feliz é o que se quer. O que você vai fazer lá fora?

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