Epifânia observou-se. No
quarto em trevas, conseguiu ver-se integralmente. Sentiu a alma agitar-se no
corpo inerte. O coração, em turbilhão, arrastava consigo a mente. Naquele
momento, todos estavam em ação, menos ela. Por que todos haviam ido para a
batalha e estavam usufruindo de seus poderes e habilidades, e só ela ficara
ali? Ela, a bruxa anciã; a mais poderosa de todas! Por que só ela fora relegada
à inércia? Isso a incomodou demasiado. Entretanto, sabia que, embora pungente,
aquele autossacrifício era necessário.
Não
obstante todos os seus poderes, Epifânia não sabia o que fazer naquela
situação. De alma guerreira e espírito indomável, ela ignorava a inação.
Lembrou-se então de um velho sábio muito querido, seu mestre, a quem não via há
muito tempo por considerar-se uma velha sábia igualmente poderosa. Mas, naquele
momento, sentia-se tão perdida quanto na época de aprendiz. Por isso,
contrariando as ordens e conselhos que recebera para permanecer no alojamento,
Epifânia foi em busca de seu mestre.
Uma
casinha no coração da mata. Uma choupana à margem direita do rio. Em seu
interior, uma luzinha bruxuleava, indicando que o mestre ainda não dormira. Epifânia,
fervente, correu à porta e abriu-a sem cerimônia. Era uma filha, que há muito
não voltava para casa.
-
Sênex, eu preciso falar-lhe! Preciso da sua ajuda! – disse-lhe, em súplica.
-
Entre, filha. Eu a estava esperando – disse um velhinho magro, em sua cadeira
de balanço.
-
Eu não sei o que está havendo. Eu tinha certeza de que era uma bruxa tão poderosa
quanto você; uma velha tão sábia quanto você! Mas eu pareço tão perdida quanto
uma criança. Por que isso? – interpelou-o, inconformada.
-
Filha, o verdadeiro poder estar em saber quando usar os seus poderes. Não nos
tornamos mestres quando queremos sê-lo. Nos tornamos mestres quando aprendemos
o momento exato de usar os nossos poderes.
-
E o que eu faço?
-
Você, estimada filha, já é uma bruxa poderosa. Eu não tenho dúvidas quanto às
suas habilidades e poderes, pois eu mesmo a iniciei. Eu sei exatamente quais são
os seus pontos fracos e os seus pontos fortes. E um de seus pontos fracos,
sobre o qual eu já lhe havia alertado, é a rainha.
-
A rainha? – inquiriu à própria memória.
-
Sim. A rainha é a contraparte da bruxa. A rainha é o seu yin; o seu feminino. A
rainha é a sua mansidão e a sua fluidez. É ela quem vai lhe ensinar quando usar
os seus poderes; quando ser a bruxa poderosa que você é; e quando guardá-los
para uma ocasião mais oportuna. Sem a rainha, você continuará se angustiando
cada vez que tiver de esperar para agir.
Epifânia
soltou um muxoxo. O velhinho, profunda e mansamente, interveio:
-
Eu sei como se sente. Eu me sentia exatamente assim. Eu me questionava e questionava
ao meu mestre: “Se eu tenho todos esses poderes, por que não posso usá-los
quando bem entender?”. E o meu mestre, pacientemente, ponderava: “Não é assim,
caro jovem. A sua ânsia por usar seus poderes poderá destruí-lo. Torne-se rei,
não de um reino distante, mas rei de si mesmo”. Eu, querida filha, repito para você
o mesmo: torne-se a rainha de si. Você desenvolveu todos os seus poderes e
habilidades, mas, agora, precisa conscientizar-se de que, às vezes, é melhor
esperar. Incorpore Regina a si. Seus poderes não diminuirão, se você guardá-los
de quando em quando. Muito pelo contrário, sabendo o momento exato de usar os
seus poderes e tendo mansidão para aguardar o momento oportuno, você será ainda
mais forte e tornar-se-á mestre. – Epifânia soltou o ar pesadamente. – Não adianta
contrariar-se. Você sabe que esse é o único caminho possível. Você já sabia
disso antes de vir aqui. Eu não lhe disse absolutamente nada que seu coração já
não tenha lhe dito. Escute-o. Escute a mim. Escute a todos os velhos sábios que
vieram antes de mim e que disseram essas mesmas palavras a seus discípulos. Você
está no caminho certo. Só precisa fundir-se com Regina.
-
Mas fundir-me com ela... vai me tornar mais... mais passiva! – choramingou.
-
Não – sentenciou o velho sábio. – Vai torná-la uma estrategista. Você saberá exatamente
quando e quanto dos seus poderes utilizar em cada situação. Não tenha medo. A mansidão
de Regina jamais a tornará uma pessoa passiva. Aproveite essa energia
desbravadora, tão forte em você, para entregar-se a essa fusão. Veja! O sol
está nascendo. As suas tropas estão voltando para casa. Volte, Regina. Seja
Regina. Esta será sua maior epifania.

Nenhum comentário:
Postar um comentário