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7 de dez. de 2017

Epifanias N° 1

        
        Epifânia observou-se. No quarto em trevas, conseguiu ver-se integralmente. Sentiu a alma agitar-se no corpo inerte. O coração, em turbilhão, arrastava consigo a mente. Naquele momento, todos estavam em ação, menos ela. Por que todos haviam ido para a batalha e estavam usufruindo de seus poderes e habilidades, e só ela ficara ali? Ela, a bruxa anciã; a mais poderosa de todas! Por que só ela fora relegada à inércia? Isso a incomodou demasiado. Entretanto, sabia que, embora pungente, aquele autossacrifício era necessário.
            Não obstante todos os seus poderes, Epifânia não sabia o que fazer naquela situação. De alma guerreira e espírito indomável, ela ignorava a inação. Lembrou-se então de um velho sábio muito querido, seu mestre, a quem não via há muito tempo por considerar-se uma velha sábia igualmente poderosa. Mas, naquele momento, sentia-se tão perdida quanto na época de aprendiz. Por isso, contrariando as ordens e conselhos que recebera para permanecer no alojamento, Epifânia foi em busca de seu mestre.

            Uma casinha no coração da mata. Uma choupana à margem direita do rio. Em seu interior, uma luzinha bruxuleava, indicando que o mestre ainda não dormira. Epifânia, fervente, correu à porta e abriu-a sem cerimônia. Era uma filha, que há muito não voltava para casa.
             - Sênex, eu preciso falar-lhe! Preciso da sua ajuda! – disse-lhe, em súplica.
             - Entre, filha. Eu a estava esperando – disse um velhinho magro, em sua cadeira de balanço.
            - Eu não sei o que está havendo. Eu tinha certeza de que era uma bruxa tão poderosa quanto você; uma velha tão sábia quanto você! Mas eu pareço tão perdida quanto uma criança. Por que isso? – interpelou-o, inconformada.
            - Filha, o verdadeiro poder estar em saber quando usar os seus poderes. Não nos tornamos mestres quando queremos sê-lo. Nos tornamos mestres quando aprendemos o momento exato de usar os nossos poderes.
              - E o que eu faço?
        - Você, estimada filha, já é uma bruxa poderosa. Eu não tenho dúvidas quanto às suas habilidades e poderes, pois eu mesmo a iniciei. Eu sei exatamente quais são os seus pontos fracos e os seus pontos fortes. E um de seus pontos fracos, sobre o qual eu já lhe havia alertado, é a rainha.
              - A rainha? – inquiriu à própria memória.
            - Sim. A rainha é a contraparte da bruxa. A rainha é o seu yin; o seu feminino. A rainha é a sua mansidão e a sua fluidez. É ela quem vai lhe ensinar quando usar os seus poderes; quando ser a bruxa poderosa que você é; e quando guardá-los para uma ocasião mais oportuna. Sem a rainha, você continuará se angustiando cada vez que tiver de esperar para agir.
            Epifânia soltou um muxoxo. O velhinho, profunda e mansamente, interveio:
            - Eu sei como se sente. Eu me sentia exatamente assim. Eu me questionava e questionava ao meu mestre: “Se eu tenho todos esses poderes, por que não posso usá-los quando bem entender?”. E o meu mestre, pacientemente, ponderava: “Não é assim, caro jovem. A sua ânsia por usar seus poderes poderá destruí-lo. Torne-se rei, não de um reino distante, mas rei de si mesmo”. Eu, querida filha, repito para você o mesmo: torne-se a rainha de si. Você desenvolveu todos os seus poderes e habilidades, mas, agora, precisa conscientizar-se de que, às vezes, é melhor esperar. Incorpore Regina a si. Seus poderes não diminuirão, se você guardá-los de quando em quando. Muito pelo contrário, sabendo o momento exato de usar os seus poderes e tendo mansidão para aguardar o momento oportuno, você será ainda mais forte e tornar-se-á mestre. – Epifânia soltou o ar pesadamente. – Não adianta contrariar-se. Você sabe que esse é o único caminho possível. Você já sabia disso antes de vir aqui. Eu não lhe disse absolutamente nada que seu coração já não tenha lhe dito. Escute-o. Escute a mim. Escute a todos os velhos sábios que vieram antes de mim e que disseram essas mesmas palavras a seus discípulos. Você está no caminho certo. Só precisa fundir-se com Regina.
            - Mas fundir-me com ela... vai me tornar mais... mais passiva! – choramingou.
        - Não – sentenciou o velho sábio. – Vai torná-la uma estrategista. Você saberá exatamente quando e quanto dos seus poderes utilizar em cada situação. Não tenha medo. A mansidão de Regina jamais a tornará uma pessoa passiva. Aproveite essa energia desbravadora, tão forte em você, para entregar-se a essa fusão. Veja! O sol está nascendo. As suas tropas estão voltando para casa. Volte, Regina. Seja Regina. Esta será sua maior epifania.

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