Quando pensamos na figura do narrador, geralmente, pensamos em “foco narrativo”, ou seja, em como a história é contada. Então, vem à nossa mente categorias como: narrador protagonista, narrador personagem, narrador onisciente, etc. Raramente, pensamos no narrador ele mesmo, isto é, nas características que o definem e, sobretudo, que o distinguem de outros narradores. No entanto, uma coisa podemos garantir: ele vai muito além do foco narrativo.
Em 1999, quando comecei a escrever ficção, eu acreditava que o narrador era simplesmente quem contava a história. A propósito, se não me falha a memória, nesta época, eu ainda confundia narrador com autor. Isto significa dizer que, para mim, era eu quem contava a história sempre. E, como uma criança de doze anos, eu não tinha muito acuro na linguagem e nem me preocupava com imagens poéticas. A minha única preocupação era contar a história, ou seja, o que tinha acontecido com os personagens. Em virtude disso, minhas narrativas eram completamente lineares, desde a sintaxe até a construção do enredo.
Só houve uma mudança significativa em meus narradores em 2012, quando decifrei Bento Santiago ― vulgo Bentinho ―, do romance Dom Casmurro, de Machado de Assis. Com Bentinho, descobri que o narrador pode ser muito mais do que simplesmente aquele que narra a história. Aprendi, com todos os narradores machadianos ― e mais especialmente com Bentinho ―, que o narrador é, em verdade, um elemento estético da obra e precisa ser tratado com tal. Por isso, inspirada em Bentinho, comecei a trabalhar mais os meus narradores, melhorando a sua linguagem e brincando mais com o acordo ficcional (1).
Neste mesmo período, por eu estar cursando Letras, conheci outros narradores interessantíssimos, como os de Dostoiévski, Kafka, Voltaire, Clarice Lispector, Jorge Luis Borges, entre outros; bem como vários ensaios sobre o narrador e sobre a construção de narrativas, o que contribuiu sobremaneira para a ampliação do meu repertório de narradores e de imagens poéticas.
Todo este arcabouço teórico e literário culminou na criação da narradora de Um chá com a velha sábia, em 2014. De todos os narradores que eu já criei até hoje, ela é, sem dúvida, a mais complexa, pois transita entre o sonho e a realidade (diegética); brinca com a linguagem e com o acordo ficcional; interage com a protagonista e com o leitor; tem momentos metalinguísticos e metaficcionais; e, muitas vezes, parece saber mais a história do que eu, a autora.
Eu reconheço: é divertido brincar com o narrador; manipular a linguagem e o enredo; mas, às vezes, me pergunto se vale a pena todo este trabalho. Afinal, quantos leitores conseguem perceber e se deliciar com toda essa riqueza e complexidade? Qual o limite entre brincar com a linguagem e/ou com o enredo e tornar o romance intragável? Esta é a pergunta de um milhão de dólares e para a qual ainda não tenho uma resposta.
O que me consola é saber que nem sempre estamos preparados para algumas obras e/ou narradores. Foi o que aconteceu comigo, por exemplo, quando li Dom Casmurro pela primeira vez (antes de 2012). Na ocasião, sem perceber as artimanhas de Bentinho, achei o romance muito chato. Eu só consegui ver a grandeza artística dessa obra quando percebi a forma como Bentinho manipula a linguagem e como brinca com o acordo ficcional, a fim de trazer o leitor para o seu lado. Outro exemplo: já tentei ler três vezes o Ulisses, de James Joyce, e ainda não fui fisgada por esta obra. A bem da verdade, não consegui passar da cena em que Stephen Dedalus está fazendo a barba. Logo, assim como eu não estou aparentemente preparada para este narrador joyceano, alguns leitores podem não estar preparados para a narradora de Um chá com a velha sábia e está tudo bem em ser assim.
No decorrer destes vinte anos como prosadora crônica, aprendi que sempre é possível descobrir e criar novos narradores. Afinal, logo que enveredei pela literatura, sequer passava pela minha imaginação que, um dia, eu criaria uma narradora como a de Um chá com a velha sábia. No período, também era impensável uma narradora como a de Amores expressos, que dá todos os detalhes eróticos de uma relação a dois, inclusive nomes e posições. Entretanto, não se trata apenas de narrar em detalhes uma relação sexual, mas sim da franqueza e da espontaneidade com que a narradora o faz. E isto era impensável em 1999, pois, além de ingênua, eu era muito tímida, o que me impelia a escrever textos extremamente polidos e sutis.
Assim sendo, hoje sei que o narrador não é um ente fechado e que cada obra exige um narrador distinto, compatível com ela. E isto, frequentemente, triplica o nosso trabalho, pois não é fácil pensar em um narrador interessante e singular para cada texto que escrevemos. Todavia, enquanto eu me divertir fazendo isso, esta será a minha escolha.
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1. Ao iniciar a leitura de uma obra de ficção, permitimo-nos dar um voto de confiança ao narrador, acreditando nos fatos trazidos por este, por mais fantásticos que sejam. Umberto Eco, em seu livro Seis passeios pelos bosques da ficção, chama esse “voto de confiança” de acordo ficcional.

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