Eu fixava o
papel, os olhos já secos. Mais uma noite mal dormida. Eu olhava para o papel e
as letras dançavam na minha frente. Eu sabia que elas estavam bonitinhas, em
fila indiana, mas mesmo assim elas dançavam o crioulo doido na minha cabeça. Eu
lia as frases e, ao terminar, já não sabia o que a sintaxe queria dizer. Ao
terminar o parágrafo, então, sentia como se estivesse lendo um texto em grego.
Mas eu escrevi esse texto. Como o meu cérebro não o está compreendendo? Tomo um
gole de café e assanho meus cabelos. O que é isso? Por que o sentido do texto
se extravia dessa maneira? Ou serão meus sentidos que desfalecem diante de mim?
Já estou na segunda xícara de café e pareço vomitar um sonho mal dito. Eu teço
e desteço as palavras quase num transe rítmico e todo o tecido soa disforme.
Onde está a paciência lúcida de Penélope? Eu não consigo ler o meu próprio
trabalho. Sinto-me o próprio mestre Zé Amaro, odiando minha escrita. Foda-se.
Não vou mais ler essa merda. Deixa o orientador ver primeiro. Lá vem ele. O
retrato de Dorian Gray treme em minhas mãos. Nem sei mais o que mostrar ao
orientador. Esqueço de lhe mostrar uns pedaços. Eu estou num estado tão
deplorável que acho que o Diabo não ia querer minha consciência nem de graça,
avalie pagando por ela. Mesmo assim, o orientador não risca muito meu trabalho.
Pede apenas que eu faça algumas ressalvas aqui e ali. E pede também para que eu
tenha calma; que eu deguste mais o desdobramento da análise. Como, se essa
escrita me parece camumbembe? Onde está o acabamento fino da sintaxe? Daqui a
pouco estou virando lobisomem e não torno a me orgulhar da minha escrita. Eu
que já escrevi cartas para um comendador, fazendo essa escrita camumbembe.
Desculpe-me o amargor. Estou mesmo um purgante. Apesar de mim, amanhã há de ser
outro dia.
23 de fev. de 2019
18 de fev. de 2019
A sombra do eu
Olho, no espelho, meu corpo. Suspiro, desapontada. Meu corpo. Meu… corpo… Que corpo estranho! Eu habito mesmo esse corpo? Minha respiração se altera; meus olhos se agigantam, interrogativos. Tudo me parece tão grande, tão desproporcional! Por que meu corpo é tão grande, tão largo? Fixo o espelho, indignada. Eu tenho 95cm de busto e 105cm de quadril, em 1,70m. Esse corpo é feminino o bastante para você? Eu sou feminina o bastante para você? Eu me sinto tão larga, tão quadrada; os ombros imensos, como se eu pudesse segurar o mundo nas costas. Meus olhos cravam a mim, incógnitos. Eu não sei se eu realmente me vejo. Eu não sei se eu me vejo três vezes pior do que eu sou. Bufo, impaciente. Eu não sei se esse espelho é daqueles que aumentam e deformam as coisas. Talvez a deformação esteja em meus olhos. Talvez sejam os meus olhos que não conseguem ver a beleza deste corpo. Você consegue ver a graça feminina que há neste corpo? Você consegue ver a doçura que há neste corpo? Eu não sei se eu vejo ou se me recuso a ver. Suspiro, abatida. Eu me vejo tão distante do ser mulher. Onde está a feminilidade; os gestos delicados e amorosos deste corpo? Esse corpo é feminino o bastante para você? Esse corpo é amável o bastante para você? Contemplo meu corpo e rejeito-o veementemente. Eu não me sinto feminina. Em verdade, eu sempre me senti muito masculina. Eu sempre gostei da energia masculina; dessa força propulsora que faz tudo acontecer. Eu amo esse instinto exploratório e penetrante, que me leva a descobrir coisas novas o tempo inteiro. Meus olhos acendem, vivificados. Talvez eu seja tão apaixonada pela energia yang, pela energia masculina, que nasci nesse corpo de mulher para ter os homens ao pé de mim. Mas tudo que consegui foi tê-los como irmãos; como companheiros de aventuras. Eu não sei o que pensar. Eu não quero pensar. Eu não quero lembrar que eu tenho um corpo. Eu não quero lembrar que esse corpo é largo e desengonçado. Eu não quero ter esse corpo. Não quero! E esmurro o vidro do espelho até não sobrar mais eu algum.
Assinar:
Comentários (Atom)

