A
Arte, desde tempos imemoriais, é subversiva. A Arte, em sua essência mais
remota, é transgressora. A Arte desnuda tudo aquilo que os documentos oficiais
e os textos técnico-científicos velam, seja por sentirem pudor em dizer, seja
por serem proibidos de dizer. A Arte, em contrapartida, rompe com o estado
obsceno das coisas. A Arte expõe o quão caótica é a ordem ou o quão ordenado é
o caos. A Arte é inconformada por natureza. A Arte põe na forma todo o disforme
que existe em nós e no mundo. A Arte não tem qualquer obrigação de nos ensinar
nada, mas ela nos ensina algo crucial. A Arte nos ensina a sermos críticos, a
vermos além das aparências. Na dialética nossa de cada dia, a própria forma
revela sua disformidade. E a mais proeminente de todas as disformidades é o
(in)politicamente correto.
O
(in)politicamente correto nada mais é do que uma roupa limpa e cheirosa, a qual
queremos usar sem termos tomado banho primeiro. Continuamos grudentos, suados,
fedorentos, mas estamos bem vestidos. O (in)politicamente correto é uma falácia
das maiores que já vi. É uma camuflagem, um disfarce para todo o disforme que
habita em nós. Afinal, podemos ofender qualquer um sem usar qualquer termo
aprioristicamente ofensivo. Por isso, não podemos cobrar ética de estética.
Em
verdade, somos muito contraditórios. Cobramos mimesis da Arte, mas a repudiamos quando expõe a nossa
disformidade. Queremos que a Arte seja “la
vie em rose”, a vida cor de rosa. Trocando em miúdos: não aceitamos que a
Arte seja mimética de fato. Exigimos ética da estética, mas não somos éticos
com a estética.
No
dia em que a estética ceder à ética, a Arte morrerá. Talvez seja exatamente
esta a intenção.

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