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14 de ago. de 2017

Um pau ou dois


Não sei lhe dizer se ele era bonito. Não me lembro de ela ter me falado sobre o rosto dele. Nossa conversa, se não me escapa a memória, girou em torno de suas partes mais íntimas. Ela confessou-me ter sido tocada em seu âmago pela genitália do rapaz, mas não da forma que você está pensando. Desculpe-me se me demoro neste preâmbulo. Faço isso tão-somente para não assustar o ilustre leitor, pois eu mesmo fiquei deveras assustado; não com o que disse, mas como disse. Portanto, vou deixar aqui as palavras dela.
            Eu estava quieta. Putz! Eu estava quieta! Eu sou quieta, desde que não mexam comigo. Mas, ontem, eu estava na minha. Eu bem relax, pedindo meu café, quando chega aquele cidadão. Aquele... Você sabe de quem estou falando.
            Na hora, eu soube. Agora já esqueci.
            Pois bem, aquele diabo apareceu para me atentar. Ele veio diretamente das profundezas do inferno só para azucrinar o meu juízo. Porra! Até o Diabo sabe tratar uma mulher melhor do que aquele camumbembe.
            Eu ri. Ri do camumbembe.
            Ria do meu penar. Ria. Pode rir. Ria, porque eu estou puta da vida! Aquele escroto teve a cara de pau de me chamar para passar uma tarde na casa dele. “Tá” – menti. Disse sim só para encerrar o papo e me livrar daquele encosto. Só que ele veio atrás de mim. Putz! Ele veio atrás de mim!
            Súbito ela ruborizou de raiva.
            Calma. Respire.
            Quando ele afagou os meus cabelos, eu me arretei. Eu me arretei... Eu só não tasquei o café quente na cara dele, porque o café não merecia. Mas ele ouviu: “Você acha que eu preciso de um pau? Eu tenho um em casa, de silicone, lindo! Eu não preciso do seu!”.
            Minha expressão facial sumiu tamanho o meu espanto.
            Ele fez essa mesma cara de bunda e eu fui embora.
            Só? E o leitor?
            É responsabilidade sua.
            Não sei como terminar. Não tenho palavras.

13 de ago. de 2017

É(sté)tica


            A Arte, desde tempos imemoriais, é subversiva. A Arte, em sua essência mais remota, é transgressora. A Arte desnuda tudo aquilo que os documentos oficiais e os textos técnico-científicos velam, seja por sentirem pudor em dizer, seja por serem proibidos de dizer. A Arte, em contrapartida, rompe com o estado obsceno das coisas. A Arte expõe o quão caótica é a ordem ou o quão ordenado é o caos. A Arte é inconformada por natureza. A Arte põe na forma todo o disforme que existe em nós e no mundo. A Arte não tem qualquer obrigação de nos ensinar nada, mas ela nos ensina algo crucial. A Arte nos ensina a sermos críticos, a vermos além das aparências. Na dialética nossa de cada dia, a própria forma revela sua disformidade. E a mais proeminente de todas as disformidades é o (in)politicamente correto.
            O (in)politicamente correto nada mais é do que uma roupa limpa e cheirosa, a qual queremos usar sem termos tomado banho primeiro. Continuamos grudentos, suados, fedorentos, mas estamos bem vestidos. O (in)politicamente correto é uma falácia das maiores que já vi. É uma camuflagem, um disfarce para todo o disforme que habita em nós. Afinal, podemos ofender qualquer um sem usar qualquer termo aprioristicamente ofensivo. Por isso, não podemos cobrar ética de estética.
            Em verdade, somos muito contraditórios. Cobramos mimesis da Arte, mas a repudiamos quando expõe a nossa disformidade. Queremos que a Arte seja “la vie em rose”, a vida cor de rosa. Trocando em miúdos: não aceitamos que a Arte seja mimética de fato. Exigimos ética da estética, mas não somos éticos com a estética.
            No dia em que a estética ceder à ética, a Arte morrerá. Talvez seja exatamente esta a intenção.