Estes dias, um cidadão abordou-me no
corredor da universidade e insistiu, angustioso, para que eu lhe explicasse
quem ou o quê é esse tal de “narrador”. Um pouco atordoada com aquela abordagem
abrupta, tentei lançar mão das leituras teóricas que havia feito acerca desta
entidade chamada “narrador”. Entretanto, antes que eu pudesse trazer para a
conversa Ligia Chiappini, Walter Benjamin, entre outros, o cidadão o fez. Além
disso, acrescentou que, embora tivesse lido os textos mais conceituados sobre o
tema, ainda não sabia o quê ou quem era esse tal de narrador. Ao fim,
sentenciou: “Eu queria que você, como escritora e poetisa, me dissesse o que é
o narrador”. Confesso que fiquei mais atordoada ainda, pois, para mim, o
narrador é um processo individual e muito íntimo de cada escritor. Não obstante,
arrisquei-me em uma definição: “Bom, para mim, o narrador é uma construção do
autor. Tanto que eu tenho vários narradores. Cada texto meu tem um narrador
diferente”. O cidadão olhou para mim com os dois olhos arregalados: “Então quer
dizer que narrador e autor são duas coisas diferentes?”. Eu parei. Olhei.
Respirei fundo. Pensei em perguntar se ele havia lido realmente os teóricos
supracitados, mas, ao invés disso, expeli um simples “sim”. Ele, todavia, continuava
sem entender e me pedia mais explicações. Minha paciência não é muita,
confesso. Por isso, respirei fundo novamente. “Bem, o narrador é aquele que
observa a história bem de perto e tem condições de contá-la” – disse eu. O
cidadão, porém, me questionou se não era o autor quem fazia isso, afinal é ele
quem escreve a história. Neste momento, confesso que tive vontade de perguntar
o que aquele cidadão estava fazendo no curso de Letras. No entanto (e já vão
escasseando as conjunções adversativas), não cedi à minha impaciência e tentei
uma explicação mítica: “Bom, eu vejo o narrador como um intermediário entre o
universo diegético (o mundo onde a história se passa) e o mundo objetivo (que
alguns chamam de real). É como o gato. O gato, segundo a mitologia egípcia,
tinha o poder de descer até o Inferno e voltar são e salvo. Da mesma forma é o
narrador: ele desce até o universo diegético para observar o que está
acontecendo com os personagens e volta para contar tudo ao escritor”. Aqui,
creio que o cidadão ficou ainda mais confuso. Apesar dos pesares, a culpa é
dele. Ele que pediu a visão da escritora sobre o narrador. Mesmo assim, um
vendedor compadeceu-se de mim e tentou explicar para o cidadão o quê ou quem é
o narrador. Não obteve sucesso. E o cidadão, graças a Deus, foi embora com seus
não entendimentos.
26 de nov. de 2016
16 de set. de 2016
Frase é bicho solto

A frase.
Que é a frase?
Frase é bicho solto.
Às vezes, é centopeia.
Não acaba nunca!
E cada vírgula é uma
perninha da centopeia.
Você já viu uma frase
assim andando por aí?
Eu já vi um bocado.
Também já vi outras
espécies de frases ainda mais assombrosas.
Você já viu uma
lagartixa?
Uma vez, cortei o
rabo de uma e ela continuou andando!
Você acredita nisso?
Pois deixe-me contar
um segredo: existe a frase lagartixa!
É aquela que, mesmo
pela metade, ainda segue em frente.
Você já viu uma frase
assim?
Conseguiu entender o
que ela dizia?
Ou você é um telepata
que consegue ler a mente do autor?
Se for, me ensine
como fazer isso.
Estou cansada de as
frases caírem no abismo e eu cair junto com elas.
Mas antes quero lhe
apresentar uma terceira espécie de frase.
Você já girou no seu
próprio eixo, como uma bailarina?
O que você sentiu?
Aposto que se sentiu
tonto.
Talvez até tenha
tropeçado nos próprios pés.
Pois existem frases
que são exatamente assim.
O autor gira tanto em
torno das ideias
que, na hora de
escrever,
está tonto e não acerta
as próprias palavras.
Você já viu uma frase
assim?
Eu fico tonta só de
olhar!
Por fim, existe a
frase formiguinha.
Se você parar para
observar as formigas trabalhando,
vai ver que uma
formiguinha segue atrás da outra,
numa filinha indiana
linda!
Pense em cada formiga
dessas como uma palavra da frase.
Assim, a frase é uma
sequência de formiguinhas, todas alinhadas uma após a outra.
Esta é a melhor frase
que existe,
pois é a frase que o
leitor consegue entender sem muito esforço.
E esta espécie de frase, na língua portuguesa,
pode ser resumida na seguinte fórmula:
1º. O sujeito;
2º. O verbo;
3º. Os complementos.
Lembre-se das
formiguinhas em fila indiana e tudo dará certo.
No mais, solte suas
ideias. Elas não merecem ficar presas dentro da sua mente.
Elas merecem, sim,
ser compartilhadas com todo mundo.
8 de jun. de 2016
Há amor em tempos de chuva

Dia dois de junho de 2016. Uma manhã
chuvosa na capital paraibana. Contudo, algumas tempestades internas são mais
severas e não nos permitem dormir. Foi em minha própria nuvem de chuva que
cheguei à UFPB naquele dia. Quem viu de fora talvez não tenha visto, mas eu
estava me sentindo terrivelmente fracassada. Entre os motivos para uma
insatisfação tão generalizada, poderíamos encontrar o fato de eu ainda não ter
concluído a minha graduação em Letras. Entretanto, nada é tão ruim que não possa
melhorar.
Naquela manhã chuvosa de junho, eu
fui à UFPB, mas meu pensamento estava bem distante das atividades acadêmicas,
mais ainda das atividades já realizadas. Na verdade, era meu coração quem
estava ali, pois eu fora à UFPB para participar de um evento que, a priori, não
tem nenhuma ligação direta com o meu curso universitário: uma mesa-redonda
sobre a história da biodanza na Paraíba. E, como a vida é imprevisível, alguns
acordes me tiraram para dançar na chuva.
Naquele dois de junho, uma manhã chuvosa,
não sei se teve arco-íris, mas recebi um potinho de ouro. Em um corredor
extraordinariamente banal, encontrei uma colega de turma que, subitamente,
declarou: “Eu me senti muito amada com aquele roteirinho (de apresentação) que você
entregou. Eu me senti orgulhosa de estar no curso de Letras”. Ela se referia a um seminário que eu havia
apresentado quinze dias antes e que ela não assistira, apenas recebera o
roteiro, em virtude de um pequeno atraso. Talvez por isto ela não tenha sabido
que, neste mesmo seminário, recebi o epíteto de “impiedosa” por ter sido muito
exigente na análise de um TCC. Não obstante, sua declaração me deixou
sinceramente comovida. Eu não era tão fracassada assim, afinal. Despedimo-nos e
cada uma seguiu seu destino, preenchida de amor.
Assim como naquela manhã chuvosa,
eu, neste dia bonito de sol, ainda não sou professora. Entretanto, senti-me
realizada por aquela breve apresentação sobre como não se fazer um trabalho
acadêmico ter sido tão importante para aquela moça. Acredito que, como afirma
Leo Buscaglia, o sentido maior de se aprender alguma coisa é poder passá-la
para outras pessoas. Por este motivo, ao montar aquele roteirinho, o qual fez
minha colega de turma sentir-se tão amada, minha intenção foi dividir com os
alunos um pouquinho de mim, um pouquinho do que eu sei sobre metodologia da
pesquisa.
Por isso que, naquela manhã chuvosa,
as nuvens logo se dissiparam e eu me senti profundamente amada e feliz por um
pouquinho de mim ter sido muito para alguém.
23 de mai. de 2016
MAIS EDUCAÇÃO (parte I)
O ônibus freou
bruscamente, assustando os passageiros. O alarido espalhou-se rapidamente e
todos especulavam o porquê do gesto abrupto do pobre motorista. Às dezoito horas,
todos estão estressados, cansados, suados, famintos. Quem consegue raciocinar
bem nessas condições? O motorista, diante da pressão popular para seguir
viagem, resfolegou esbaforido. Era impossível: além dos carros à frente, com
seus passageiros igualmente esfomeados e exauridos, ainda um bando (seriam
animais?) de adolescentes interditava a via com cartazes e palavras de ordem.
Palavras que não eram nem de longe dirigidas aos motoristas nem ao trânsito
caótico, mas ao Estado, este soberano abstrato que só não tem mais culpas do
que o diabo. O ônibus, lotado, impacientou-se. Se suas casas não estivessem tão
longe, os passageiros, muitos deles, teriam descido ali mesmo e seguido o resto
do caminho a pé. Aliúde era um deles.
O dia na
escola tinha sido tão difícil e ela estava tão exaurida, que só queria café,
banho e cama. Mesmo assim, a curiosidade falou mais alto e Aliúde botou a
cabeça para fora da janela, para ver o que estava acontecendo. Seria algum
acidente? O trânsito estava mais parado do que o normal.
Mais adiante,
muitos cartazes imergiam na multidão. Os dizeres eram os mais diversos: “MAIS
EDUCAÇÃO”, “VEM PRA RUA”, “O GIGANTE ACORDOU” e outros clamores que se erguiam
acima dos rostos pintados de verde e amarelo. O que queriam dizer aquelas
palavras? Aliúde estava tão exausta e faminta, que não conseguia raciocinar
direito. O que aquilo tudo queria dizer?
Aqueles jovens tinham fome de quê? MAIS EDUCAÇÃO. O que significava aquilo?
Aliúde se
lembrou de suas salas de aula. Suas turmas estavam cada vez mais apinhadas de
alunos. Via, na televisão, as propagandas institucionais dizerem que cada vez
mais jovens entravam na universidade. Entravam... Mas saíam? De repente,
recordou-se de cada colega seu que ficara pelo caminho. Cada um por um motivo
diferente. E aqueles jovens ali, pedindo MAIS EDUCAÇÃO. Mas não podia ser só
quantidade. Quantidade havia! “Se o gigante acordou de fato – pensou Aliúde,
esperançosa –, ele há de querer mais qualidade! Ele há de estar faminto de
qualidade, de inovação! Quantidade nós temos! E não estamos dando conta da
quantidade que temos!”
Do lado de
fora do ônibus, alguns jovens se aproximaram das janelas, insistindo para que
os passageiros se reunissem a eles em sua luta. Os passageiros, cansados, não
tinham ânimo para entrar na luta dos outros. Não compartilhavam a mesma fome
que aqueles jovens. A fome mais urgente era a do estômago. A única coisa que
aquelas pessoas queriam era chegar em casa, jantar, descansar. Os jovens, ainda
assim, gritavam palavras de ordem, exibindo em alto e bom som os seus clamores,
na tentativa de convencer os passageiros do ônibus de que a sua fome por MAIS
EDUCAÇÃO também precisava ser satisfeita.
Aliúde,
contagiada por aquela empolgação juvenil, estava quase pedindo ao motorista
para abrir a porta, quando todos ouviram tiros ao longe.
Gritos.
Choros. Foi um alvoroço só. Tanto dentro como fora do ônibus. Não fosse a total
ausência de espaço vago, todos os passageiros teriam se agachado no chão.
Contudo, o máximo que conseguiram fazer foi proteger a cabeça. Do lado de fora,
os estudantes corriam. Corriam esfomeados e perdidos, sem ter um destino à
frente.
As balas não
eram de verdade. Eram de borracha. Mas causavam tanto terror quanto. O gás
lacrimogêneo, todavia, era de verdade e cegou a muitos, que, famintos,
continuavam sem comer.
Onde estaria a
educação a mais? Onde estaria a educação para a não violência?
Pela janela do
ônibus, Aliúde viu muitos jovens feridos, estendidos nas calçadas, enquanto o
trânsito finalmente voltava a fluir. “Que educação é essa que nós temos?” –
questionou-se a professora. Que educação era aquela dos policiais? Que educação
é essa, tão esfaimada, que não conseguiu, ainda, ser satisfeita?
Aliúde se
sentiu triste. Sua fome seria satisfeita em poucos minutos. Mas sua outra fome,
a fome que comungava com aqueles jovens, não seria satisfeita tão cedo. Não
enquanto os conflitos ainda fossem resolvidos com violência. Enquanto a fome
fosse calada como algo proibido.
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