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26 de nov. de 2016

O narrador, este não ser que é

         Estes dias, um cidadão abordou-me no corredor da universidade e insistiu, angustioso, para que eu lhe explicasse quem ou o quê é esse tal de “narrador”. Um pouco atordoada com aquela abordagem abrupta, tentei lançar mão das leituras teóricas que havia feito acerca desta entidade chamada “narrador”. Entretanto, antes que eu pudesse trazer para a conversa Ligia Chiappini, Walter Benjamin, entre outros, o cidadão o fez. Além disso, acrescentou que, embora tivesse lido os textos mais conceituados sobre o tema, ainda não sabia o quê ou quem era esse tal de narrador. Ao fim, sentenciou: “Eu queria que você, como escritora e poetisa, me dissesse o que é o narrador”. Confesso que fiquei mais atordoada ainda, pois, para mim, o narrador é um processo individual e muito íntimo de cada escritor. Não obstante, arrisquei-me em uma definição: “Bom, para mim, o narrador é uma construção do autor. Tanto que eu tenho vários narradores. Cada texto meu tem um narrador diferente”. O cidadão olhou para mim com os dois olhos arregalados: “Então quer dizer que narrador e autor são duas coisas diferentes?”. Eu parei. Olhei. Respirei fundo. Pensei em perguntar se ele havia lido realmente os teóricos supracitados, mas, ao invés disso, expeli um simples “sim”. Ele, todavia, continuava sem entender e me pedia mais explicações. Minha paciência não é muita, confesso. Por isso, respirei fundo novamente. “Bem, o narrador é aquele que observa a história bem de perto e tem condições de contá-la” – disse eu. O cidadão, porém, me questionou se não era o autor quem fazia isso, afinal é ele quem escreve a história. Neste momento, confesso que tive vontade de perguntar o que aquele cidadão estava fazendo no curso de Letras. No entanto (e já vão escasseando as conjunções adversativas), não cedi à minha impaciência e tentei uma explicação mítica: “Bom, eu vejo o narrador como um intermediário entre o universo diegético (o mundo onde a história se passa) e o mundo objetivo (que alguns chamam de real). É como o gato. O gato, segundo a mitologia egípcia, tinha o poder de descer até o Inferno e voltar são e salvo. Da mesma forma é o narrador: ele desce até o universo diegético para observar o que está acontecendo com os personagens e volta para contar tudo ao escritor”. Aqui, creio que o cidadão ficou ainda mais confuso. Apesar dos pesares, a culpa é dele. Ele que pediu a visão da escritora sobre o narrador. Mesmo assim, um vendedor compadeceu-se de mim e tentou explicar para o cidadão o quê ou quem é o narrador. Não obteve sucesso. E o cidadão, graças a Deus, foi embora com seus não entendimentos.

16 de set. de 2016

Frase é bicho solto

A frase.
Que é a frase?
Frase é bicho solto.
Às vezes, é centopeia.
Não acaba nunca!
E cada vírgula é uma perninha da centopeia.
Você já viu uma frase assim andando por aí?
Eu já vi um bocado.
Também já vi outras espécies de frases ainda mais assombrosas.
Você já viu uma lagartixa?
Uma vez, cortei o rabo de uma e ela continuou andando!
Você acredita nisso?
Pois deixe-me contar um segredo: existe a frase lagartixa!
É aquela que, mesmo pela metade, ainda segue em frente.
Você já viu uma frase assim? 
Conseguiu entender o que ela dizia?
Ou você é um telepata que consegue ler a mente do autor?
Se for, me ensine como fazer isso.
Estou cansada de as frases caírem no abismo e eu cair junto com elas.
Mas antes quero lhe apresentar uma terceira espécie de frase.
Você já girou no seu próprio eixo, como uma bailarina?
O que você sentiu?
Aposto que se sentiu tonto.
Talvez até tenha tropeçado nos próprios pés.
Pois existem frases que são exatamente assim.
O autor gira tanto em torno das ideias
que, na hora de escrever,
está tonto e não acerta as próprias palavras.
Você já viu uma frase assim?
Eu fico tonta só de olhar!
Por fim, existe a frase formiguinha.
Se você parar para observar as formigas trabalhando,
vai ver que uma formiguinha segue atrás da outra,
numa filinha indiana linda!
Pense em cada formiga dessas como uma palavra da frase.
Assim, a frase é uma sequência de formiguinhas, todas alinhadas uma após a outra.
Esta é a melhor frase que existe,
pois é a frase que o leitor consegue entender sem muito esforço.
 E esta espécie de frase, na língua portuguesa, pode ser resumida na seguinte fórmula:
1º. O sujeito;
2º. O verbo;
3º. Os complementos.
Lembre-se das formiguinhas em fila indiana e tudo dará certo.
No mais, solte suas ideias. Elas não merecem ficar presas dentro da sua mente.
Elas merecem, sim, ser compartilhadas com todo mundo.

8 de jun. de 2016

Há amor em tempos de chuva


            Dia dois de junho de 2016. Uma manhã chuvosa na capital paraibana. Contudo, algumas tempestades internas são mais severas e não nos permitem dormir. Foi em minha própria nuvem de chuva que cheguei à UFPB naquele dia. Quem viu de fora talvez não tenha visto, mas eu estava me sentindo terrivelmente fracassada. Entre os motivos para uma insatisfação tão generalizada, poderíamos encontrar o fato de eu ainda não ter concluído a minha graduação em Letras. Entretanto, nada é tão ruim que não possa melhorar.
            Naquela manhã chuvosa de junho, eu fui à UFPB, mas meu pensamento estava bem distante das atividades acadêmicas, mais ainda das atividades já realizadas. Na verdade, era meu coração quem estava ali, pois eu fora à UFPB para participar de um evento que, a priori, não tem nenhuma ligação direta com o meu curso universitário: uma mesa-redonda sobre a história da biodanza na Paraíba. E, como a vida é imprevisível, alguns acordes me tiraram para dançar na chuva.
            Naquele dois de junho, uma manhã chuvosa, não sei se teve arco-íris, mas recebi um potinho de ouro. Em um corredor extraordinariamente banal, encontrei uma colega de turma que, subitamente, declarou: “Eu me senti muito amada com aquele roteirinho (de apresentação) que você entregou. Eu me senti orgulhosa de estar no curso de Letras”.  Ela se referia a um seminário que eu havia apresentado quinze dias antes e que ela não assistira, apenas recebera o roteiro, em virtude de um pequeno atraso. Talvez por isto ela não tenha sabido que, neste mesmo seminário, recebi o epíteto de “impiedosa” por ter sido muito exigente na análise de um TCC. Não obstante, sua declaração me deixou sinceramente comovida. Eu não era tão fracassada assim, afinal. Despedimo-nos e cada uma seguiu seu destino, preenchida de amor.
            Assim como naquela manhã chuvosa, eu, neste dia bonito de sol, ainda não sou professora. Entretanto, senti-me realizada por aquela breve apresentação sobre como não se fazer um trabalho acadêmico ter sido tão importante para aquela moça. Acredito que, como afirma Leo Buscaglia, o sentido maior de se aprender alguma coisa é poder passá-la para outras pessoas. Por este motivo, ao montar aquele roteirinho, o qual fez minha colega de turma sentir-se tão amada, minha intenção foi dividir com os alunos um pouquinho de mim, um pouquinho do que eu sei sobre metodologia da pesquisa.
            Por isso que, naquela manhã chuvosa, as nuvens logo se dissiparam e eu me senti profundamente amada e feliz por um pouquinho de mim ter sido muito para alguém.

                                                                                                      

23 de mai. de 2016

MAIS EDUCAÇÃO (parte I)


O ônibus freou bruscamente, assustando os passageiros. O alarido espalhou-se rapidamente e todos especulavam o porquê do gesto abrupto do pobre motorista. Às dezoito horas, todos estão estressados, cansados, suados, famintos. Quem consegue raciocinar bem nessas condições? O motorista, diante da pressão popular para seguir viagem, resfolegou esbaforido. Era impossível: além dos carros à frente, com seus passageiros igualmente esfomeados e exauridos, ainda um bando (seriam animais?) de adolescentes interditava a via com cartazes e palavras de ordem. Palavras que não eram nem de longe dirigidas aos motoristas nem ao trânsito caótico, mas ao Estado, este soberano abstrato que só não tem mais culpas do que o diabo. O ônibus, lotado, impacientou-se. Se suas casas não estivessem tão longe, os passageiros, muitos deles, teriam descido ali mesmo e seguido o resto do caminho a pé. Aliúde era um deles.
O dia na escola tinha sido tão difícil e ela estava tão exaurida, que só queria café, banho e cama. Mesmo assim, a curiosidade falou mais alto e Aliúde botou a cabeça para fora da janela, para ver o que estava acontecendo. Seria algum acidente? O trânsito estava mais parado do que o normal.
Mais adiante, muitos cartazes imergiam na multidão. Os dizeres eram os mais diversos: “MAIS EDUCAÇÃO”, “VEM PRA RUA”, “O GIGANTE ACORDOU” e outros clamores que se erguiam acima dos rostos pintados de verde e amarelo. O que queriam dizer aquelas palavras? Aliúde estava tão exausta e faminta, que não conseguia raciocinar direito.  O que aquilo tudo queria dizer? Aqueles jovens tinham fome de quê? MAIS EDUCAÇÃO. O que significava aquilo?
Aliúde se lembrou de suas salas de aula. Suas turmas estavam cada vez mais apinhadas de alunos. Via, na televisão, as propagandas institucionais dizerem que cada vez mais jovens entravam na universidade. Entravam... Mas saíam? De repente, recordou-se de cada colega seu que ficara pelo caminho. Cada um por um motivo diferente. E aqueles jovens ali, pedindo MAIS EDUCAÇÃO. Mas não podia ser só quantidade. Quantidade havia! “Se o gigante acordou de fato – pensou Aliúde, esperançosa –, ele há de querer mais qualidade! Ele há de estar faminto de qualidade, de inovação! Quantidade nós temos! E não estamos dando conta da quantidade que temos!”
Do lado de fora do ônibus, alguns jovens se aproximaram das janelas, insistindo para que os passageiros se reunissem a eles em sua luta. Os passageiros, cansados, não tinham ânimo para entrar na luta dos outros. Não compartilhavam a mesma fome que aqueles jovens. A fome mais urgente era a do estômago. A única coisa que aquelas pessoas queriam era chegar em casa, jantar, descansar. Os jovens, ainda assim, gritavam palavras de ordem, exibindo em alto e bom som os seus clamores, na tentativa de convencer os passageiros do ônibus de que a sua fome por MAIS EDUCAÇÃO também precisava ser satisfeita.
Aliúde, contagiada por aquela empolgação juvenil, estava quase pedindo ao motorista para abrir a porta, quando todos ouviram tiros ao longe.
Gritos. Choros. Foi um alvoroço só. Tanto dentro como fora do ônibus. Não fosse a total ausência de espaço vago, todos os passageiros teriam se agachado no chão. Contudo, o máximo que conseguiram fazer foi proteger a cabeça. Do lado de fora, os estudantes corriam. Corriam esfomeados e perdidos, sem ter um destino à frente.
As balas não eram de verdade. Eram de borracha. Mas causavam tanto terror quanto. O gás lacrimogêneo, todavia, era de verdade e cegou a muitos, que, famintos, continuavam sem comer.
Onde estaria a educação a mais? Onde estaria a educação para a não violência?
Pela janela do ônibus, Aliúde viu muitos jovens feridos, estendidos nas calçadas, enquanto o trânsito finalmente voltava a fluir. “Que educação é essa que nós temos?” – questionou-se a professora. Que educação era aquela dos policiais? Que educação é essa, tão esfaimada, que não conseguiu, ainda, ser satisfeita?
Aliúde se sentiu triste. Sua fome seria satisfeita em poucos minutos. Mas sua outra fome, a fome que comungava com aqueles jovens, não seria satisfeita tão cedo. Não enquanto os conflitos ainda fossem resolvidos com violência. Enquanto a fome fosse calada como algo proibido.