O ônibus freou
bruscamente, assustando os passageiros. O alarido espalhou-se rapidamente e
todos especulavam o porquê do gesto abrupto do pobre motorista. Às dezoito horas,
todos estão estressados, cansados, suados, famintos. Quem consegue raciocinar
bem nessas condições? O motorista, diante da pressão popular para seguir
viagem, resfolegou esbaforido. Era impossível: além dos carros à frente, com
seus passageiros igualmente esfomeados e exauridos, ainda um bando (seriam
animais?) de adolescentes interditava a via com cartazes e palavras de ordem.
Palavras que não eram nem de longe dirigidas aos motoristas nem ao trânsito
caótico, mas ao Estado, este soberano abstrato que só não tem mais culpas do
que o diabo. O ônibus, lotado, impacientou-se. Se suas casas não estivessem tão
longe, os passageiros, muitos deles, teriam descido ali mesmo e seguido o resto
do caminho a pé. Aliúde era um deles.
O dia na
escola tinha sido tão difícil e ela estava tão exaurida, que só queria café,
banho e cama. Mesmo assim, a curiosidade falou mais alto e Aliúde botou a
cabeça para fora da janela, para ver o que estava acontecendo. Seria algum
acidente? O trânsito estava mais parado do que o normal.
Mais adiante,
muitos cartazes imergiam na multidão. Os dizeres eram os mais diversos: “MAIS
EDUCAÇÃO”, “VEM PRA RUA”, “O GIGANTE ACORDOU” e outros clamores que se erguiam
acima dos rostos pintados de verde e amarelo. O que queriam dizer aquelas
palavras? Aliúde estava tão exausta e faminta, que não conseguia raciocinar
direito. O que aquilo tudo queria dizer?
Aqueles jovens tinham fome de quê? MAIS EDUCAÇÃO. O que significava aquilo?
Aliúde se
lembrou de suas salas de aula. Suas turmas estavam cada vez mais apinhadas de
alunos. Via, na televisão, as propagandas institucionais dizerem que cada vez
mais jovens entravam na universidade. Entravam... Mas saíam? De repente,
recordou-se de cada colega seu que ficara pelo caminho. Cada um por um motivo
diferente. E aqueles jovens ali, pedindo MAIS EDUCAÇÃO. Mas não podia ser só
quantidade. Quantidade havia! “Se o gigante acordou de fato – pensou Aliúde,
esperançosa –, ele há de querer mais qualidade! Ele há de estar faminto de
qualidade, de inovação! Quantidade nós temos! E não estamos dando conta da
quantidade que temos!”
Do lado de
fora do ônibus, alguns jovens se aproximaram das janelas, insistindo para que
os passageiros se reunissem a eles em sua luta. Os passageiros, cansados, não
tinham ânimo para entrar na luta dos outros. Não compartilhavam a mesma fome
que aqueles jovens. A fome mais urgente era a do estômago. A única coisa que
aquelas pessoas queriam era chegar em casa, jantar, descansar. Os jovens, ainda
assim, gritavam palavras de ordem, exibindo em alto e bom som os seus clamores,
na tentativa de convencer os passageiros do ônibus de que a sua fome por MAIS
EDUCAÇÃO também precisava ser satisfeita.
Aliúde,
contagiada por aquela empolgação juvenil, estava quase pedindo ao motorista
para abrir a porta, quando todos ouviram tiros ao longe.
Gritos.
Choros. Foi um alvoroço só. Tanto dentro como fora do ônibus. Não fosse a total
ausência de espaço vago, todos os passageiros teriam se agachado no chão.
Contudo, o máximo que conseguiram fazer foi proteger a cabeça. Do lado de fora,
os estudantes corriam. Corriam esfomeados e perdidos, sem ter um destino à
frente.
As balas não
eram de verdade. Eram de borracha. Mas causavam tanto terror quanto. O gás
lacrimogêneo, todavia, era de verdade e cegou a muitos, que, famintos,
continuavam sem comer.
Onde estaria a
educação a mais? Onde estaria a educação para a não violência?
Pela janela do
ônibus, Aliúde viu muitos jovens feridos, estendidos nas calçadas, enquanto o
trânsito finalmente voltava a fluir. “Que educação é essa que nós temos?” –
questionou-se a professora. Que educação era aquela dos policiais? Que educação
é essa, tão esfaimada, que não conseguiu, ainda, ser satisfeita?
Aliúde se
sentiu triste. Sua fome seria satisfeita em poucos minutos. Mas sua outra fome,
a fome que comungava com aqueles jovens, não seria satisfeita tão cedo. Não
enquanto os conflitos ainda fossem resolvidos com violência. Enquanto a fome
fosse calada como algo proibido.
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