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1 de mar. de 2021

A soma de todos os mestres

 

Imagem by: freepik

Um discípulo é a soma de todos os seus mestres e eu sou tão (ou mais) exigente do que aqueles que adotei como mestres. O meu primeiro grande mestre, sem dúvida, foi Aristóteles, a quem dediquei uma crônica inteira (leia aqui), mas hoje quero falar dos mestres literários.

Antes de conhecer Dostoiévski e Kafka, eu descrevia excessivamente personagens e cenários, além de sempre interromper a narrativa para fazer tais descrições. Só quando li Crime e Castigo e A Metamorfose, do russo e do tcheco, respectivamente, foi que descobri que era possível descrever personagens e cenários de forma diluída e progressiva no decorrer do texto. Além disso, aprendi com Kafka e Dostoiévski a fazer as descrições através do comportamento dos personagens e de suas interações com o meio e com os demais personagens.

Durante muitos anos de ofício, tratei o narrador como simplesmente “aquele que conta a história”. Foi só quando conheci Machado de Assis e, especialmente, Bentinho, que descobri a verdadeira importância do narrador e o quanto ele pode ser decisivo no desenrolar do enredo. Mais do que isso: aprendi, com Machado e Bentinho, que o narrador é um elemento estético da obra e pede uma lapidação acurada (leia mais aqui).

No que tange aos diálogos, no início, os meus eram terríveis. Eu esticava os diálogos o máximo possível, recorrendo, muitas vezes, a expressões banais ou perguntas bobas. Eu só tive contato com um diálogo lindo e preciso, quando li Hamlet e, mais posteriormente, O Mercador de Veneza, ambos de Shakespeare. Através dessas obras, percebi que eu não precisava dizer tudo nos diálogos e que poderia, inclusive, mostrar só um recorte destes e insinuar o restante. Ademais, aprendi com Shakespeare que um bom diálogo ajuda a tecer a trama e a redirecionar o enredo.

Já com Clarice Lispector, aprendi a trazer a consciência dos personagens para a superfície do texto. Entretanto, raramente uso o fluxo da consciência propriamente dito. Na maioria das vezes, trago os pensamentos do personagem no meio da fala do narrador, como se um estivesse respondendo ou completando o pensamento do outro. Muitos anos depois, descobri que a forma como faço isso está mais para Antonio Callado do que para Clarice Lispector, pois há, na grande maioria das vezes, uma interferência considerável por parte do narrador na condução dos parágrafos.

Não obstante, quem me desvirginou de verdade foi Rubem Fonseca, especialmente os contos “Feliz Ano Novo” e “O cobrador”. Eu era deveras polida em minha linguagem e chegava mesmo a ser pudica, evitando quaisquer termos que me soassem agressivos ou chulos. Foi com Rubem Fonseca que aprendi a usar uma linguagem mais crua e sem tantos pudores, sempre que for cabível e necessário para conseguir os efeitos pretendidos.

Se Rubem Fonseca me ensinou a dizer tudo sem rodeios nem floreios, Jorge Luis Borges me revelou como criar verdadeiros labirintos espaço-temporais, ao adentrar sonhos e lembranças do personagem, sem avisar ao leitor antes de fazê-lo. Tanto que, em dado momento da feitura de Um chá com a velha sábia, eu interrompi a escrita do romance por um tempo, porque até eu já estava perdida nos labirintos de Maia, a protagonista.

Todos os mestres supracitados chegaram até mim através de outro grande mestre, chamado Arturo Gouveia. No entanto, Arturo, enquanto escritor, me ensinou algo muito valioso também: pensar a linguagem do narrador de acordo com o tipo de cena que está sendo escrita (mais erótica, mais sublime, mais grotesca ou mais agressiva); sempre considerando os efeitos estéticos e/ou dramáticos que queremos alcançar.

Por fim, não por ordem de importância, e sim por uma questão cronológica, aprendi com Milton Marques Jr. a ouvir o que escrevo, para perceber a melodia dos meus textos. E, ao perceber o quanto o texto fica mais prazenteiro quando encontramos a “cadência bonita do samba”, passei a editar os meus escritos em voz alta. Todavia, percebi que esse comportamento de só querer editar se for em voz alta tem deixado o processo de edição deveras lento e, por isso, estou reaprendendo a editar em silêncio. Mesmo assim, reconheço que, depois de ver o ritmo da poesia com Milton, minhas frases nunca mais foram as mesmas.

Estes são os mestres que tenho hoje, no momento em que escrevo este texto. Reconheço, porém, que há muitos escritores maravilhosos que ainda não conheço ou que não conheço em profundidade. Talvez, daqui a uns bons anos, eu tenha outros tantos mestres para acrescer à lista então apresentada.