Nunca fui muito disciplinada em minhas criações. Gostaria de dizer que basta eu me sentar para escrever que as ideias jorram no papel, mas o meu processo criativo não é tão constante assim. A Musa pode me dar ideias em qualquer lugar, a qualquer momento, e eu nem sempre consigo registrá-las na hora em que surgem. Entretanto, o processo criativo é bem mais complexo do que simplesmente esperar a Musa aparecer.
Amit Goswami, por exemplo, em seu livro Criatividade para o século 21, afirma que o processo criativo compreende quatro momentos: preparação, incubação, insight repentino e manifestação. Apesar da ordem das etapas ser geralmente esta, sua duração não é pré-definida e cada uma delas pode demorar de alguns minutinhos ― o tempo de um cafezinho ― a alguns anos para se completar. Não obstante, muitas vezes, não temos tempo ou paciência para esperar a incubação e o insight repentino e queremos pular da preparação direto para a manifestação. Todavia, isto nem sempre traz o melhor resultado ou o resultado esperado, diferentemente de quando respeitamos todas as etapas.
Segundo o físico indiano, na preparação, reunimos fatos e ideias existentes sobre o tema escolhido e pensamos a respeito. Esta etapa pode ser uma das mais demoradas, dependendo da complexidade do tema ou do tipo de texto que precisamos escrever. A preparação para uma tese de doutorado, certamente, demanda mais tempo do que a preparação para uma crônica, por exemplo. E, justamente por demandar tanto tempo e esforço, esta etapa costuma ser uma das mais negligenciadas do processo criativo, especialmente quando temos prazos curtíssimos a cumprir.
Já a incubação é o momento em que relaxamos e permitimos que o trabalho relaxe, assim como deixamos a massa do pão descansar antes de assá-lo. Trata-se do momento em que nos afastamos do trabalho ― para descansar ou realizar atividades outras ― e delegamos ao nosso inconsciente a tarefa de digerir todas as informações coletadas na primeira etapa. Este é o momento mais difícil para mim, pois ou me angustio com a sensação de que estou perdendo tempo ou fico com a mente fervilhando de ideias e não consigo abstrair do texto que estou escrevendo. E este é um mal que não atinge só a mim. Estamos tão ansiosos, estressados e impacientes, que são raras as vezes em que relaxamos o mínimo necessário para usufruir plenamente do período de incubação.
O insight repentino, como o próprio nome antecipa, pode surgir de onde e quando menos se espera. A história, tanto das ciências como das artes, está repleta de casos em que a solução para um problema ou aquela ideia extraordinária surgiu na mente do cientista/artista durante o banho ou em um sonho, por exemplo. O insight, contudo, pode ser tão sutil que passa despercebido por nós. Por isso, não podemos descartar nenhuma ideia antes de testá-la.
Quando tudo se encaixa em nossa mente a partir do insight repentino, temos, enfim, condições de materializar a ideia que tivemos, dando forma a tudo aquilo que pensamos e pesquisamos sobre o tema. Minha autocrítica, por vezes, me atrapalha bastante nesta fase da manifestação, pois exijo demais das minhas ideias e acabo destecendo mais do que tecendo histórias. No entanto, aqui e ali, consigo materializar alguma ideia e apresentá-la ao mundo.
O Amit Goswami brinca que o processo criativo poderia ser resumido à “do-be-do-be-do” (fazer-ser-fazer-ser-fazer), pois algumas de suas etapas exigem uma ação mais efetiva, como a preparação e a manifestação, enquanto outras exigem um maior relaxamento e entrega, como a incubação e o insight repentino. Não obstante, este equilíbrio entre ser e fazer anda cada vez mais escasso em nossa sociedade viciada em produzir.
Eu sou um exemplo disso. Eu me tornei um “fazer humano” a tal ponto, que não tenho paciência para ficar cinco minutos respirando conscientemente em uma meditação. Eu só passei dois meses matutando como ia escrever esta crônica depois de ler o livro do Amit, porque eu estava ocupada demais rascunhando um romance. Por isso, preciso me lembrar constantemente das palavras do próprio Amit Goswami: “Aprender a relaxar é aprender a ser”.
Sejamos ― enquanto a Musa não vem.