Eu conto histórias desde que aprendi a formar frases. Logo, eu conto histórias desde muito antes de vivê-las. Eu conto histórias desde que me entendo por gente. Eu escrevo histórias há nada mais, nada menos do que setenta anos.
Hoje, aos oitenta anos, eu escrevo em um confortável escritório-biblioteca. Mas nem sempre pude gozar deste privilégio. Quando criança, eu escrevia em qualquer lugar, à qualquer hora. Escrevia na sala, na cozinha, no banheiro; embaixo da mangueira no quintal. Nem sempre pude ficar só para escrever. Na adolescência, quando comecei a escrever textos e cenas mais picantes, repletos de luxúria e termos interditos, eu escrevia no mundo, bem longe dos olhos curiosos da minha família. Às vezes, também escrevia de madrugada, enquanto todos na casa dormiam. Parecia-me que escrever sobre tais coisas era um pecado maior do que fazê-las ou do que a própria masturbação.
Nesta época, ninguém lia o que eu escrevia. E não liam, porque eu não queria que lessem. Afinal, os textos que produzia no período ou eram muito íntimos, ou muito indecentes, ou esteticamente ruins. Eu não queria que ninguém visse uma obra minha medíocre. Uma obra de qualidade artística questionável. Na maturidade, creio eu, comecei a escrever textos melhores. Textos mais bem elaborados; mais bem costurados. Provavelmente, fruto do meu acúmulo de leituras dos grandes clássicos da literatura mundial, bem como da prática constante e exaustiva. Afinal, como diz o velho Aristóteles, “a excelência é um hábito”. E, depois de mais de vinte anos escrevendo, não era possível que eu não melhorasse ao menos um pouco.
Naquele tempo, escrevia textos imensos. Às vezes, mil, duas mil palavras por dia. Escrevi, certa feita, uma cena que se estendia por mais de cinquenta páginas. Em outra ocasião, escrevi um diálogo que só ele daria um romance inteiro, pois ficara com duzentas páginas. Ao todo, escrevi uns vinte livros, mas nunca soube de ninguém que os tivesse lido. E, se alguém leu, não faço ideia se gostou ou se ao menos entendeu. Eu escrevi tanto. Para quê?
No final da vida, de que me adianta todos estes números: mil palavras, duzentas páginas, setenta anos de escrita? De que me adianta todos estes números, se não tenho notícias de um leitor sequer? Não sei de uma única pessoa, na minha vizinhança, na minha cidade ou em qualquer outro recôndito do planeta, que tenha lido qualquer dos meus livros e tenha gostado; se emocionado; ou mesmo odiado. Acho que eles nem sabem que eu sou escritor.
Antes de ser arrancado desta terra, gostaria ao menos de saber se dei algum fruto útil ou se fui uma insignificante figueira seca, que, em breve, será lançada ao fogo.
