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8 de mai. de 2020

Síndrome de Pestana: fazer arte ou sobreviver?*

Na foto, o ator Jude Law como Thomas Wolfe, no filme O Mestre dos Gênios (2016)

Pestana é um dos personagens mais célebres de Machado de Assis. Pestana é um compositor de polcas cujo sonho é tornar-se um músico erudito, a exemplo de Beethoven, Mozart, Bach, etc. Enquanto tenta compor uma peça clássica, Pestana torna-se famoso na cidade do Rio de Janeiro por suas polcas. Mais do que isso: Pestana depende das polcas para sobreviver, especialmente depois da morte de sua esposa.

É fato que, em 1896, quando “Um homem célebre” foi publicado, ainda não existia o conceito de indústria cultural, cunhado por Theodor Adorno e Max Horkheimer, em a Dialética do Esclarecimento (1947). Entretanto, meio século antes dos frankfurtianos, Machado de Assis já traz à discussão a prática de uma arte feita para consumo rápido, como as polcas do Pestana. Logo, embora não houvesse o conceito, já havia o gérmen do que viria a ser a indústria cultural. Já havia a pressão social e comercial para fazer “o que vende”, enquanto os sonhos do artista morrem à míngua.

A discussão que gostaria de levantar aqui não é sobre a natureza da arte (erudita x popular), e sim sobre como o artista se sente em relação à arte que produz: ele se sente feliz e realizado ou, a exemplo de Pestana, gostaria de se dedicar a outros estilos artísticos ou mesmo ter um ritmo menos opressor de criação artística?

Na narrativa machadiana, vemos que Pestana produz uma polca por semana, enquanto sua peça clássica não avança com a mesma celeridade. E é compreensível que seja assim, pois o ritmo da arte não é igual ao ritmo de produção fabril, embora nossos egos ansiosos e arrogantes assim o quisessem. Que artista nunca teve ― por um lampejo que fosse ― a ambição de produzir uma arte por dia? É possível? Sim e não. Quando comecei a desenhar, eu fazia um desenho por dia. Até o dia em que eu percebi que, quanto mais tempo eu demorava em um desenho, melhor ele ficava. Então, tive o seguinte insight: qualidade demanda tempo e dedicação.  Portanto, querer acelerar a criação artística só atrapalha o processo, como afirma Amit Goswami, em seu livro Criatividade para o século 21. Mesmo assim, está cada vez mais desafiador não incorporar o ritmo de produção fabril nas artes, sobretudo com o advento das redes sociais e a proliferação de artistas de toda ordem.

Ante o exposto, podemos dizer que Pestana representa o artista dividido entre o que gostaria de produzir enquanto arte e o que é impelido a produzir pelas necessidades e circunstâncias. E Pestana representa de tal modo este arquétipo que hoje, mais de um século depois de sua criação, ainda nos vemos diante da mesma dúvida: “Fazer arte ou sobreviver da arte?”. Eis a Síndrome de Pestana.

Reconheço, todavia, que faço esta pergunta de um lugar privilegiado, pois nunca dependi da arte para garantir a minha subsistência. Eu não preciso escrever vinte páginas por semana; dois livros por ano. Eu faço arte. Eu posso degustar cada palavra, cada linha. Eu posso ouvir cada frase e apreciar sua musicalidade. Uma pergunta: eu teria condições de fazer isso, se eu escrevesse vinte páginas por semana? Duvido muitíssimo. E outra: eu estaria disposta a abrir mão do que eu mais amo na arte, que é o ato mesmo de criar, para produzir uma literatura de consumo rápido? Duvido. É um preço muito alto por quinze minutos de fama. No entanto, como disse, falo de um lugar privilegiado: uma artista que nunca dependeu de sua arte para sobreviver.

Para um artista como eu, certamente é fácil dizer: “Faça a arte que mais lhe agrada e esqueça o resto!”. Afinal, quem já tem o mínimo garantido pode se dar o luxo de produzir o tipo de arte que lhe for mais aprazível, sem qualquer culpa ou pressão para entregar uma polca por semana. Esta, porém, não é a realidade de muitos artistas. Para um artista que sobrevive da própria arte, ou seja, que depende da venda de suas produções artísticas para suprir suas necessidades mais básicas, é deveras difícil recusar qualquer trabalho que lhe renda alguns trocados.

Ainda assim, insisto: é possível para um artista viver apenas produzindo “o que vende”? Quantos anos de secura interna nossa alma aguenta? É evidente que cada artista sabe de si. Eu, por exemplo, creio que não conseguiria escrever ou desenhar só “o que vende”, o que tem mais curtidas e comentários, se isso não ressoasse com o que viceja dentro de mim. Eu confesso: eu sou artista no bom e no mau sentido. Entretanto, isto aponta para uma outra questão: “Será que sobrevivemos neste mundo, produzindo única e exclusivamente o que nos alimenta a alma?”. É possível, mas não é fácil, haja vista que tanto o corpo quanto a alma cobram um preço alto quando são negligenciados. O caminho, penso, é buscar uma coerência interna em tudo que fazemos, para nutrirmos ambos por igual.
   
Admito, porém, que não é fácil resistir à indústria cultural. Não obstante, enquanto me for possível e aprazível, continuarei fazendo arte, mesmo que os sinos dobrem apenas por mim.

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* Texto publicado originalmente na edição de março de 2020 do Correio das Artes.