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15 de abr. de 2020

O inferno são os outros?


A frase mais célebre de Jean-Paul Sartre diz que “o inferno são os outros”. Todavia, acredito que nunca recebi críticas mais duras ao meu trabalho do que aquelas proferidas por mim mesma. Logo, eu sou o meu próprio inferno.

A autocrítica ― virtude tão aclamada ―  pode tornar-se altamente perniciosa, quando em excesso. Neste caso, a autocrítica passa de valioso instrumento de trabalho, especialmente no que tange à edição, para o nosso pior carrasco, aquele para o qual nada está bom. Já faz algum tempo que a minha autocrítica tem oscilado muito entre o remédio e o veneno, tendendo mais para o último.

Eu critico tudo em meus trabalhos, desde a minha caligrafia até a construção do enredo, passando por todas as miudezas possíveis. Eu me incomodo se as frases estão muito curtas ou muito longas; se os diálogos são extensos ou se há muita descrição; se predomina o sumário narrativo ou se, ao contrário, não há quase informações sobre o passado dos personagens. A bem da verdade, eu me incomodo com quase tudo e escrevo cada texto pelo menos três vezes, até considerá-lo apresentável.

Eu não sei precisar em que momento destes vinte anos de ofício eu me tornei tão exigente em relação ao meu próprio desempenho literário. A hipótese mais plausível, na minha opinião, é a de que tornei-me mais severa com minhas produções em prosa depois de conhecer Aristóteles e alguns decanos da literatura mundial: Dostoiévski, Shakespeare, Machado de Assis, Kafka etc. Ao conhecê-los, desafiei a mim mesma a ser cada vez melhor naquilo que mais amava fazer, pois não bastava ser somente profícua. Era necessário escrever textos de qualidade. Eu só não imaginava que a minha autocrítica pudesse se tornar tão ácida.

Há dias em que a minha autocrítica está tão exacerbada que não consigo escrever uma vírgula.  Nestes momentos, a única coisa que posso fazer é respirar e esperar minha mente desanuviar, para que as ideias voltem a fluir no papel. O danado é que a minha mente não pára de acessar o vácuo quântico e coisa que não me falta são ideias. Então, eu me pergunto: “Se eu fosse menos autocrítica, conseguiria dar conta de todas essas ideias?”. A resposta é sempre a mesma: “Mais certamente eu escreveria. Melhor, tenho minhas dúvidas”.

Não obstante, ainda me flagro querendo escrever mais (textos ou parágrafos mais extensos) e mais rápido, como se ser verborrágica fosse um prenúncio de qualidade artística. Para minha felicidade, o espectro de Aristóteles logo retorna, para me lembrar do que realmente importa: que a história esteja bem construída, bem amarrada, independentemente da quantidade de páginas que eu leve para conseguir tal resultado.

A despeito de reconhecer a necessidade de ser mais disciplinada em meu ofício (concluindo as obras que começo, por exemplo), sei também que preciso ser menos dura comigo mesma, para que a minha criatividade possa respirar mais livremente e alçar voos cada vez mais altos.

4 de abr. de 2020

Aristotélica



Se não me falha a memória, conheci Aristóteles em 2010, através de uma tradução não muito confiável de sua Poética. Ainda assim, posso assegurar que conhecer o pensamento aristotélico, especialmente no que concerne à literatura, mudou radicalmente a minha escrita.

Antes de Aristóteles, eu era mais bacante do que sou hoje. Eu simplesmente escrevia o que me viesse à cabeça, sem me preocupar muito com o tratamento dado à forma. E, apesar de ouvir incontáveis vezes que eu escrevia muito bem, reconheço o quanto minhas histórias do período eram medíocres, sobretudo os diálogos. No entanto, eu só tive consciência disso e pude, destarte, reverter este quadro, ao conhecer Aristóteles. Logo, a primeira grande mudança que ocorreu em mim depois da leitura da Poética foi a elevação da minha autocrítica. Autocrítica esta que me rendeu (e ainda rende) frutos muito doces e, outros, bem amargos.

Sem dúvida, antes mesmo de ter acesso a uma tradução minimamente razoável da Poética, o que mais me chamou à atenção nesta foi a questão da organicidade da obra. Para Aristóteles, nós, os escritores, precisamos nos ater ao que é essencial ao enredo, ou seja, aquilo que não pode ser deslocado ou removido sem prejuízo para a compreensão e/ou progressão da narrativa. Ao saber disso, comecei a prestar mais atenção nas cenas e diálogos que escrevia, enxugando-os ao máximo. Consequentemente, meus textos tornaram-se cada vez mais concisos e orgânicos. Um exemplo disso é que raramente descrevo cenários ou narro ações do cotidiano (jantar, dormir, tomar banho etc.), a menos que, durante tais ações, aconteça algo extraordinário ou indispensável para o andamento da história. Esta, portanto, foi a segunda grande mudança na minha escrita.

Ainda sobre a questão da organicidade da obra, recentemente descobri que, se tentamos definir o que é essencial ao enredo enquanto ainda o estamos redigindo, a situação torna-se problemática e por um motivo muito simples: se, a cada cena escrita, nós pararmos para decidir se ela é essencial ou não, há uma probabilidade muito grande de não conseguirmos concluir a obra ou, no mínimo, demorarmos mais tempo do que o necessário para isso. Ademais, nós só podemos ter uma real dimensão do que é necessário ou não para o desenvolvimento do enredo quando dispusermos do todo, isto é, quando tivermos concluído ao menos o manuscrito da obra. Afinal, como disse um professor meu, “é melhor ter de onde tirar do que não ter o que botar”. Não obstante, esta é uma lição que ainda me custa aplicar, especialmente no que tange aos romances, pois eu, tal qual Penélope a esperar Ulisses, amo tecer e destecer as cenas.

Outro ponto salientado por Aristóteles em sua Poética é o que se refere à unidade e extensão das obras. Diz ele que a extensão ideal é aquela que possibilita a transformação do personagem, numa sucessão provável ou necessária de eventos. Assim sendo, convém sabermos previamente por qual transformação desejamos que o personagem passe, a fim de direcionarmos o enredo para a sua realização. Caso não tenhamos um objetivo claro, as peripécias podem se proliferar ad infinitum e, quando nos apercebemos, o romance já está com quinhentas páginas e nem sinal do desfecho. No meu caso, porém, acontece amiúde o oposto: quando não sei para onde o personagem está indo, o fluxo criativo simplesmente trava e eu não consigo escrever uma vírgula. Entretanto, desde que conheço Aristóteles, tenho respeitado sua recomendação para não começar ou terminar as narrativas em um ponto fortuito. Esta, sem dúvida, foi a terceira grande mudança na minha escrita desde então.

Um último ponto que gostaria de destacar na Poética é a questão da clareza e da grandeza artística. O Aristóteles que recomenda o uso de metáforas e de termos não usuais para  distinguir a linguagem poética da linguagem prosaica é o mesmo que nos pede para atentarmos para a clareza do texto. E eu, como boa aristotélica, quero que o meu texto fique instigante e belo. Por este motivo, utilizo com certa regularidade toda sorte de deslocamentos e ampliações de sentido possíveis, como metáforas, ironias, ambiguidades etc. Entretanto, confesso que, de alguns anos para cá, tenho me preocupado tanto em lapidar a forma que, não raro, o fluxo criativo trava. Prova disso é que já estou escrevendo um romance há cinco anos e sou incapaz de estipular qualquer prazo para a sua conclusão. E toda esta pressão interna para atingir um efeito X ou Y no texto é um indicativo de que aprendi esta lição apenas parcialmente.

Por todo o exposto, concluo dizendo que, depois de Aristóteles, preciso reaprender a simplesmente sentar e escrever; entregar-me à Musa e deixar as ideias fluírem o quanto queiram. Só após concluir o primeiro rascunho da obra, parar para editá-la, lapidando tudo o que for necessário. Só assim estarei sendo realmente aristotélica.