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| Desenho by: M. C. Escher |
De tanto ouvir uma amiga falar mal de seus próprios livros, desconfiei muitíssimo e resolvi lê-los. Ela, com medo por eu ser escritora e estudiosa da Literatura, resistiu em me passar suas obras. Todavia, eu, como uma boa caprica, perseverei. E minha obstinação foi recompensada: quarta-feira, um de seus romances chegou às minhas mãos.
Sinceramente, eu desaprendi a ler por ler; ler só por fruição. Meus olhos observam tudo; cada mínima variação ou fuga do previsível. Minha mente estabelece conexões e lança hipóteses ao vento, mesmo que eu não me disponha a anotá-las. Sim, eu incorporei a crítica literária e penso como tal. Então, foi com esse olhar duplo (a escritora e a crítica) que iniciei a leitura do romance da minha amiga. E, já no Prólogo, confirmei minhas suspeitas: ela escreve muito bem. Tanto, que eu parava a leitura a todo instante para comentar e dar alguns pitacos. Além disso, ao acessar sua poética, tive notícias da minha, exatamente como afirma o poeta chileno Rolando Toro: “Quando encontro o outro, tenho notícias de mim”.
Em 2019, completarei vinte anos como ficcionista e posso dizer que minha escrita nunca foi tão rica e complexa como está agora. Muito desse aperfeiçoamento devo à Teoria da Literatura e ao fato de ter conhecido, ao longo da graduação, grandes autores, como Machado de Assis, Kafka, Dostoiévski, Antonio Callado, etc. Todavia, não há nada tão bom que não possa ser melhorado. Por isso, nos comentários que fiz ao Prólogo do romance de minha amiga, percebi características da minha escrita e também do que eu concebo como Literatura.
Primeiramente, eu nunca consegui ser prolixa. A bem da verdade, nunca achei justo com o leitor roubar seu precioso tempo. Em virtude disso, minhas frases variam entre medianas e curtas. No entanto, a objetividade sintática nem sempre implica uma clareza semântica. À semelhança de Bentinho, o “Dom Casmurro”, eu brinco com o leitor. Aliás, meus narradores. Eu sou apenas um nome na capa do livro. Mas, como isto se trata de uma crônica, não vou me alongar na distinção entre narrador e autor. Em suma, digamos que sejamos um só. Eu, propositalmente, desloco palavras de seu campo semântico habitual; eu misturo presente, passado e futuro; eu entrelaço fatos, sonhos e lembranças; eu animo a natureza e radicalizo, vou à raiz dos sentimentos, pensamentos e ações dos personagens. Logo, se não me é espontânea a habilidade de enrolar o leitor com excessos vocabulares e sintáticos, desenvolvi outros modos de direcioná-lo para um determinado ponto. Com isso, especialmente pós-Bentinho, aprendi a não ter pena do leitor. E nem de mim, pois transcender o previsível exige um labor ainda maior.
Não obstante, se antes, nos idos de 1999, e até muito recentemente, eu queria descrever e explicar tudo, para que o leitor não se perdesse, hoje, entrego-lhe apenas o fio de Ariadne, pois não posso (nem quero) percorrer o Labirinto por ele. Confesso, inclusive, que às vezes nem eu conheço o Labirinto por completo. Muitas vezes - e até prefiro que seja assim -, eu faço questão de explorar o Labirinto junto com o leitor. Sim, nem sempre eu sei o que os narradores sabem, e, aqui e ali, eles que me conduzem na narrativa.
Para mim, como escritora, literatura é fusão e entrega; é mesclar os sentidos - tanto os físicos quanto os semânticos - e hiperbolizar o sentir; é exalar movimento e quebrar as expectativas com conexões improváveis; é brincar com o leitor e cativá-lo com o inesperado. Literatura, poeticamente falando, é a magia do cotidiano. Essa é a minha poética; a minha visão artística do meu ofício. Criticamente falando, utilizaria conceitos incabíveis aqui.
Voltando à poética da minha amiga, reconheço nela a escritora que fui. Entretanto, com meus pitacos e comentários, não quero moldá-la numa cópia minha. Quero apenas abrir seus olhos para a potência e as possibilidades que sua poética encerra.
