Café
era caiado, alourado. Seus olhos azuis, no entanto, não se sobressaíram à sua paixão
pelo ouro verde. Esta é a origem do seu nome e do seu vício. Aos quatro anos de
idade, aproveitou um descuido da mãe e sorveu o café que ela deixara. Contra qualquer
prognóstico, apaixonou-se pelo amargor. A mãe empurrava-lhe chocolates, mas o
menino preferia o amargo. Tomava doses cada vez maiores de cafeína, ignorando a
troça da mãe: “Menino, tu vai ficar preto de tanto café!”. “Bobagem!”,
dizia-lhe, já grande.
Café
caiado era, caiado ficou. E, nem quando começou a comer o pó, sua tez mudou. No
início, uma colher de chá. Em pouco tempo, uma de sopa. Hoje, torra os grãos ele
próprio e devora-os como a chocolates belgas. Peguei um certa vez e quase me
arranca a mão. “Quer café? Passo um para você.” Ciúme. O maná era só seu. “Quantos
grãos você come por dia?”, arrisquei uma tarde. “O suficiente para vinte
páginas”, respondeu sem responder. Café era escritor. Há vinte anos escrevia um
romance, que ninguém nunca vira. Um romance à la Penélope. Das vinte páginas
diárias, quantas sobreviviam ao ocaso? “Quando Ulisses voltar, o romance sai”,
brincava eu. Tais graças não o faziam rir. O grão amargo lhe dava a paciência
de Penélope. “Quando você morrer, posso publicar seus manuscritos?”,
alfinetei-o. “Não me pressione. O mundo ainda não está pronto para o meu
romance”, respondeu-me, impaciente.
Café
e seu(s) romance(s). A namorada? Não se lembrava de quando a vira por último: “Ontem...
Mês passado... Que diferença faz?”. Para ele, talvez não fizesse. Café, tal
qual Penélope, era fiel somente às letras e aos grãos, que ele mesmo torrava. “E
o sexo, não faz?”, questionei. “Todos os dias. Re-li-gi-o-sa-men-te. Minha
orgia é escrever”, arrematou.
Café
e seu(s) romance(s). Apenas o amargo os mantém vivos.