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Não dizei: “Encontrei a verdade”, mas sim:“Encontrei uma verdade” (Khalil Gibran).
Todos nós, em algum momento da vida, já fomos um leitor ingênuo, que acreditava piamente em tudo o que lia. Confiávamos que, se estava escrito e publicado, devia ser verdade. E essa inocência é fundamental para o nosso desenvolvimento mental, especialmente no que tange à imaginação. Todavia, alguns leitores parecem nunca perdê-la.
Um dia, não me lembro onde, ouvi uma mulher queixar-se de que um determinado autor tinha mentido. De imediato, pensei tratar-se de um texto científico, pois exigimos uma idoneidade maior dos acadêmicos do que dos romancistas. Porém, para a minha surpresa, a fonte de indignação da referida mulher era um romance. Acredito que ela nunca ouviu falar em uma coisa chamada “verdade diegética”, muito comum em livros ficcionais, e que corresponde a dizer que aquilo que acontece em uma obra segue a lógica (verdade) interna daquela mesma obra. Então, o que é verdade na ficção?
Primeiramente, não é porque está escrito que é a Verdade. E, mesmo que seja verdade, é a verdade para quem? Para quem escreveu? Para quem lê? Para um grupo X de pessoas? Ou, no caso de obras literárias, apenas para o personagem que vive a situação narrada? Eu sinto muito destruir as ilusões de quem quer que seja, mas, como antecipa a epígrafe deste texto, muitas verdades povoam o mundo e cada um conta a sua. Logo, quem somos nós para dizer que alguém está mentindo?
Segundo, não é porque eu escrevi algo em 1999, que hoje, em 2022, ainda estou vivendo a mesma verdade interna ou defendo o mesmo ponto de vista daquela época. No texto seguinte, no livro seguinte, eu posso já ter mudado de ideia e/ou estar vivendo uma situação totalmente diversa da explorada no(s) meu(s) trabalho(s) anterior(es), afinal, a lei do progresso nos convida a evoluir sempre. Por conseguinte, se nós, enquanto pessoas, temos o direito de mudar de ideia, caso cometamos um equívoco ou aprendamos novas formas de ser, viver e fazer, por que um escritor não pode mudar e avançar também? A propósito, o que seria da literatura se nós nunca mudássemos?
Terceiro, como escritores, somos convidados a olhar para um fato/lugar a partir dos olhos do narrador ou dos personagens (se eles discordarem em suas visões). Por este motivo, a Paris de Proust é completamente diferente da Paris de Flaubert, Balzac ou Verne. Ademais, em sua bibliografia, um mesmo autor pode trazer diferentes visões de um mesmo lugar ou fato. Por exemplo: a São Petersburgo de Noites Brancas é completamente diferente da São Petersburgo de Crime e Castigo. Tanto, que cheguei a pensar que não havia sido Dostoiévski que escrevera Noites Brancas ou então a tradução que comprei era péssima, porque não se parecia em nada com Crime e Castigo. Logo, se mesmo as coisas ditas reais, como Paris e São Petersburgo não correspondem totalmente à realidade, o que é verdade na ficção?
A resposta é simples: tudo é verdade. Todas as situações narradas são verdade para os personagens que as vivem. Se, um belo dia, Gregor Samsa acordou metamorfoseado em um inseto, isso é a verdade dele e o livro inteiro segue a lógica dessa verdade. Claro, como escritores, podemos contaminar muito ou pouco o texto com nossos próprios pensamentos e sentimentos, muito embora tenhamos consciência de que escrevemos uma obra ficcional. E mesmo que o próprio autor declare publicamente que se trata de um trabalho autobiográfico, não se engane: pode haver mais ficção do que sonha o autor, pois o nosso cérebro tem o incrível poder de preencher as lacunas da nossa memória com detalhes inexistentes na situação originalmente vivida. Que o diga Bentinho, de Dom Casmurro.
Em virtude disso, não tome como lei ou como verdade absoluta tudo o que lê, só porque foi escrito ou publicado ― nem mesmo este texto.